Histórias de bairro: como duas atrizes inspiraram nomes em Assunção
Assunção de meados do século XX nos apresenta duas histórias entrelaçadas que mostram como a cultura e a diplomacia deixaram sua marca nas famílias assuncenas através de nomes que perduram na memória coletiva.
A fascinação por Mirtha Legrand na Avenida Colón
Em abril de 1942 nascia uma menina no lar de Lúcia Pereira e Silvio Lacognata Costanzo em Assunção. Silvio era um importante empresário, proprietário de uma das maiores lojas da época localizada na rua Palma, denominada "A la ciudad de Roma". A família residia em uma régia mansão na avenida Colón, que se mantém intacta até hoje.
Durante esses anos, o casal estava profundamente admirado pelas atrizes gêmeas Goldie e Mirtha Legrand, que já brilhavam em filmes como "Soñar no cuesta nada" desde 1941. Seus longas-metragens eram exibidos nos mais prestigiosos cinemas da Assunção do início dos anos 40. Inspirados por essa admiração, os pais decidiram nomear sua filha Mirtha em homenagem à destacada atriz argentina.
O fanatismo pela artista chegou a tal ponto que o convite para os quinze anos de Mirtha, em 1957, contou com a temática da própria atriz como decoração principal. Posteriormente, quando Mirtha teve sua filha no final dos anos 60, continuou com essa tradição batizando-a com o mesmo nome, consolidando assim um culto de três gerações a Mirtha Legrand que faz parte das histórias urbanas da cidade.
Dulce María Loynaz e a correspondência de Cuba
Em uma época em que os nomes eram selecionados seguindo fielmente o santoral, outra história paralela se desenrolava. Em 1946, Sigfrido Gross Brown, ministro da Educação no gabinete de Higinio Morínigo, foi convidado a Cuba junto com sua esposa Joaquina "Nena" Costa Martí, uma reconhecida dama da alta sociedade assuncena com vínculos internacionais.
Durante essa viagem oficial, a senhora Gross Brown conheceu Dulce María Loynaz (1902-1997), uma das vozes poéticas mais destacadas de Cuba. Ambas as mulheres estabeleceram uma amizade sólida que se manteve através de uma correspondência regular. Contam que "La nena" Gross Brown ganhou popularidade em Assunção pela intensidade de sua correspondência internacional, configurando-se como vencedora de um ranking daqueles anos denominado "Quién cartea más".
A distinguida poetisa cubana, fascinada por sua nova amiga, lhe propôs escrever uma poesia para que a utilizasse como nome caso tivesse outra filha. Quando seu irmão, Nano Costa Martí, ouviu essa história, pediu à sua irmã que utilizasse o nome da poetisa cubana para sua própria filha, que nasceu pouco depois dessa viagem em 1946. Dessa maneira, Dulce María se converteu em um legado da amizade transnacional e da admiração pela literatura cubana.
O legado de duas culturas na memória assuncena
Essas histórias entrecuzam os destinos de famílias assuncenas com figuras icônicas do cinema argentino e da poesia cubana. Ambas as narrativas refletem uma época em que Assunção olhava para o exterior, incorporando influências culturais que se plasmavam em decisões tão pessoais quanto a escolha do nome dos filhos.
Hoje, aquela primeira Mirtha Lacognata completou 83 anos, enquanto sua musa inspiradora, a atriz Mirtha Legrand, se aproxima dos 100. Dulce María Loynaz, a poetisa que deixou seu nome na memória das famílias assuncenas, já faz parte da história cultural de Cuba e do mundo. Ambas as mulheres, embora tenham vivido em geografias distantes, deixaram marcadas suas influências nos relatos assuncenos de bairro que hoje se contam como testemunhos de uma Assunção cosmopolita e culturalmente receptiva de meados do século XX.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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