Entre o folclore juvenil e a autoajuda musical
Reflexão sobre a eclosão rica da música em castelhano entre os jovens da América Latina
Há um ano escrevi em minha conta de Instagram sobre A vida era mais curta, o belo álbum do compositor e intérprete argentino Milo J. Encontrei então "canciones bellísimas, de una alta poética callejera, en donde la chacarera o el carnavalito se dan la mano con el trap o el tango"; um disco com canções que "tienen casi siempre un trasfondo de clase inocultable, una cosa de barrio y de pobreza y dignidad que se agradece ante tanto artista de vida millonaria cantándole a su vida millonaria".
Agora Milo J, depois de um sucesso arrebatador deste disco que "reconciliou" surpreendentemente os muito jovens das cidades da Argentina com o folclore rioplatense de seus avós, oferece várias daquelas canções em versões com outros artistas e um vídeo de 30 minutos gravado ao vivo em uma barcaça sobre as águas do Rio da Prata.
O resultado é uma beleza absoluta de som e autenticidade, uma ode ao dia de hoje, mas sobretudo ao peso sustentador de uma tradição. Trata-se de uma obra transgeracional que contacta os centros da música urbana com os centros da música rural, periférica, através dos únicos pontes que historicamente permitem este vínculo: os jovens.
Como uma vez disse a alguém, quando Milo J realizou um concerto memorável não em Cosquín Rock, mas no primordial Cosquín, o do folclore: "A diferença de Charly, não se foi levar rock de Buenos Aires aos 'provincianos', se foi levar folclore diretamente". Charly ou Fito Páez foram ao Cosquín folclórico mas não levaram folclore aos jovens; Milo J, sim: Crianças cordobesas de dez ou doze anos choravam então com o 6x8 de algumas canções, como este ano choraram no Porto de Assunção, frente ao rio Paraguai, milhares de jovens paraguaios que foram ouvi-lo.
"Jangadero", que é como se chama o vídeo ao vivo em questão, está cheio de colaborações felizes, que nem é preciso citar os artistas que "intervêm".
Há um ano conclui que "a diversa música em castelhano dos jovens de hoje ao longo da América Latina experimenta uma eclosão riquíssima". Continuo pensando cada dia mais o mesmo.
Tenho para mim que "I Know You're Hurting", de Raye, é uma das mais belas canções que se deram a conhecer este ano, e seu disco, THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE, também. Sua voz "sem polimento" é um desses presentes naturalmente sofisticados que nosso ouvido nem sempre acostuma a receber em um tempo "artificialmente sofisticado", onde é difícil discernir já a autenticidade do epígono digital.
(Neste sentido, Rosalía é um bom exemplo me parece desta voz feminina e desta forma "étnica" de cantar que pegou o pop como o que é: uma esponja entre a cultura popular, a culta e a massiva, sobre as que se sustenta o som).
É uma canção solidária contra a depressão, com um trasfundo religioso explícito mas sutil. É um disco otimista em um sentido não convencional: esta música contém esperança. A esperança é reacionária? Creio que não. A ilusão é reacionária, mas aqui há pouco disso.
Raye é compositora, e como tal é uma criadora de melodias muuuito sofisticadas, complexas (os mais grandes do pop e do rock, como Paul McCartney ou Charly García, fazem isto), umas melodias redondamente emotivas: para o jogo ou a tristeza. Te atrapam quando menos o esperás, e costumam assaltarem-me súbitamente em qualquer lado: já me encontro, de repente, cantarolando uma canção sua enquanto caminho por 15 de Agosto e Presidente Franco. É pop em todo sentido a música de Raye, mas é jazz à medida inteligente e comercial de Montreux também. Há Broadway nela, além disso, e isto é decididamente central em sua proposta. E sua dicção do inglês nessas harmonias vocais... ¡awwwww!
"I know you're hurting" a compôs após ter uma conversa sobre saúde mental masculina com músicos homens de sua banda. É uma exortação a falar da dor, a abrir-se a...
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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