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Economia

Encontrei um cemitério com os restos de 40 mil pessoas escravizadas sob minha casa durante uma reforma

Descoberta acidental revela local esquecido de Cemitério de Pretos Novos no Rio de Janeiro

09/07/2026 13:45 3 min lectura 6 visualizações
"Encontré un cementerio con los restos de 40.000 personas esclavizadas bajo mi casa durante una reforma"

Iniciar finalmente as obras em sua casa foi uma vitória para Merced e Petrúcio Guimarães dos Anjos: o 8 de janeiro de 1996 marcou o início do projeto de construção com o qual tanto havia sonhado.

Os pedreiros cavaram os buracos para as colunas que sustentariam um segundo andar na casa familiar, um espaço pensado para que as três filhas pequenas do casal tivessem bastante espaço para correr e brincar.

Mas na hora do almoço, um dos trabalhadores, o senhor José, sentou-se junto a Merced, intrigado pelo que havia visto.

"Enquanto cavávamos encontramos muitos ossos de cachorro... Acho que os antigos donos costumavam enterrar ossos no pátio!", disse a Merced, segundo ela mesma relata à BBC News Brasil.

Aquela tarde terminaria mudando sua vida para sempre e desencadeando um processo de transformação na zona portuária do Rio de Janeiro.

Era a primeira casa própria da família; antes viviam de aluguel. Após comprar a propriedade, mudaram-se para ela e passaram outros seis anos economizando até que finalmente tiveram fundos suficientes para uma reforma.

A propriedade, situada no bairro de Gamboa, datava de 1866, época em que se estabeleceram os primeiros assentamentos residenciais na zona do porto. A Merced pareceu estranha a história dos ossos e pediu para vê-los.

"Aproximei-me, revirei entre os restos e encontrei uma mandíbula de adulto. Disse: 'Senhor José, isso não é de um cachorro, é humana! Veja isso. É igual à nossa'. Ele se benzeu", lembra.

"Depois apareceu uma mandíbula minúscula. Disse: 'Senhor José, esta pertence a uma criança'. Foi então quando ele rompeu a chorar. Todos ficaram ali parados, olhando. Comecei a afastar os ossos para um canto e depois a classificá-los em caixas. Havia muitos ossos quebrados".

Seguiu-se um período de especulações. "Imaginávamos todo tipo de coisas. 'Terão matado pessoas os antigos donos da casa e as terão enterrado aqui?'. E também: 'É um assassino em série!'".

Nesse mesmo dia, Merced ligou para um vizinho que conhecia bem a história da zona portuária. Chegou a sua casa com um livro antigo. Um mapa mostrava a localização de um cemitério, perto dos mercados onde se vendiam pessoas escravizadas.

"Me disse: 'Você vive sobre um cemitério. Você acabou de descobrir um cemitério de pessoas escravizadas'", lembra Merced.

"Eu disse: 'Caramba. E agora, o que faço com isso?'".

Esse dia marcou o redescoberta do Cemitério de Pretos Novos, que funcionou aproximadamente entre 1770 e 1830 e onde Merced calcula que foram enterradas 40 mil pessoas.

A existência do cemitério era conhecida graças aos registros históricos, mas sua localização exata havia se perdido, apagada pela expansão da cidade.

O termo Pretos Novos ("negros novos") era utilizado para se referir às pessoas escravizadas que acabavam de chegar ao Brasil e ainda não falavam português.

"Encontrei os restos de um holocausto. O holocausto negro", diz Merced com os olhos cheios de lágrimas ao lembrar do impacto de ver os restos ósseos sob sua própria casa, incluindo pequenas mandíbulas com os brotos iniciais de dentes permanentes.

"Não tínhamos ideia dessa história", lembra Merced, que vive na zona portuária desde criança.

"Ninguém jamais mencionou que este lugar havia sido um posto comercial para a venda de pessoas como escravos. Esta história estava ou..."

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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