Duas décadas sem El Yacaré: a história de um semanário alternativo paraguaio
Um periódico único em seu tempo
El Yacaré foi um semanário de oito páginas que circulou durante cinco anos sem custo algum para seus leitores. Sua distribuição era completamente gratuita, e principalmente alcançava espaços onde se realizavam concertos, obras de teatro, exposições, lançamentos de livros, praças e quiosques da cidade.
Desde setembro de 2001 até finais de agosto de 2006, o periódico manteve uma tiragem inicial de 5.000 exemplares semanais, que posteriormente se estabilizou em aproximadamente 2.000 exemplares. Seu modelo de sustentabilidade se baseava em patrocínios e assinantes, enquanto aqueles que trabalhavam na publicação o faziam de maneira voluntária.
Estrutura e conteúdos
A equipe fundadora, conformada por Miguel Méndez e Alejandro Lanas, era composta por pessoas provenientes do teatro, da música e estudantes de cursos da Universidade Nacional de Assunção. O principal atrativo para os leitores era a programação de atividades culturais, onde se informava sobre dia, hora e local de obras teatrais, apresentações de dança, exposições, cursos e oficinas.
Além da programação, El Yacaré publicava artigos de opinião, análises jornalísticas e notas sobre diversos temas de atualidade. Durante seu último ano e meio de circulação, contou com a colaboração habitual do sociólogo Tomás Palau, que também era assinante do periódico.
Uma perspectiva alternativa
Como publicação alternativa, El Yacaré abordou a realidade nacional desde uma ótica distinta. Circulou durante os últimos anos do Março Paraguaio, atravessou a presidência de Lucho González Macchi e boa parte do governo de Nicanor Duarte Frutos. Em suas páginas refletiram-se temas como a emigração para a Espanha, a problemática da terra, a atividade municipal, o incêndio do supermercado Ycuá Bolaños e a situação dos povos indígenas, entre outros eventos que marcaram a história nacional.
A despeito de seu enfoque em questões sociais e conjunturais, o periódico manteve um caráter dinâmico. A liberdade criativa na escrita e a qualidade do design gráfico, destacando os trabalhos de Charles Daponte em matéria de diagramação e tipografia, distinguiram a publicação.
Parte de uma experiência coletiva
El Yacaré não foi uma iniciativa isolada, mas que fez parte de experiências culturais coletivas mais amplas. Em 1999, um grupo de entusiastas fundou El Espacio Sajonia, um centro cultural que transformou a vida do bairro. Foi nesse lugar onde nasceu o projeto jornalístico, com grande parte da mesma equipe humana.
Posteriormente, com os movimentos do centro cultural, as instalações se trasladaram para a avenida Espanha, onde funcionou como El (Otro) Espacio, depois para uma casarão sobre a rua Ayolas como El Espacio, e finalmente em um escritório dentro da casarão do Sindicato de Jornalistas do Paraguai, localizada em Haedo.
Um legado duradouro
Produzido com esforço sustentado e distribuído mediante tração humana e bicicleta, El Yacaré logrou publicar 260 números, superando amplamente a expectativa de vida da maioria das publicações alternativas, que geralmente não transcendem os cinco ou seis exemplares.
Embora operasse em uma época prévia ao auge das redes sociais, contou com uma página web que funcionou durante um tempo. Atualmente, a publicação faz parte da história pouco conhecida do jornalismo nacional, especialmente para as novas gerações de leitores e profissionais da informação. Muitas pessoas conservam ainda exemplares do semanário que atestiguam essa experiência editorial única.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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