Delfor Boggino, a mão que ensinava
O trem passou uma vez pela infância de Delfor Boggino e deixou uma marca para toda a vida: os dedos anular e médio da mão direita ficaram presos entre o ferro e o destino.
Os acidentes da infância costumam ficar sepultados sob os anos, mas às vezes se convertem em um sinal que acompanha toda a vida. Aquela ausência física, longe de se converter em uma tragédia permanente, terminou sendo uma silenciosa lição de caráter.
Com o tempo, aquele menino se converteu em patologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas. Era de estatura mediana e cabelo louro, traços que no Paraguai costumam despertar o comentário inevitável de "gringo". Mas o que mais o definia não era sua aparência, senão sua maneira de estar entre os demais.
Seu trato era afável, sua conversação vivaz. Sempre disposto a explicar, esclarecer dúvidas ou iniciar alguma conversa inesperada. Tinha a precisão de um médico quando falava de ciência, mas também uma curiosidade aberta, quase infantil, diante das perguntas.
Os alunos o observávamos com uma mistura de respeito e curiosidade. Não só por seus conhecimentos, senão também pela sequela visível daquele infortúnio.
Grande fumante – como eram tantos nessa época – segurava o cigarro de uma maneira particular. A ausência daqueles dedos fazia com que o gesto fosse distinto, chamativo, quase desafiante para a lógica da anatomia humana.
Um dia, finalmente, alguém se animou a perguntar.
Boggino o olhou com calma, como se tivesse estado esperando essa pergunta há muito tempo.
–Perdi esses dedos por um trem quando era criança –respondeu–. Mas o importante não é o que nos falta, senão como usamos o que nos resta.
Nesse momento ninguém tomou notas. Não era uma explicação de histologia nem de patologia celular. Ali, entre microscópios, lâminas tingidas e frascos de formol, a lição ia muito além da Anatomia Patológica.
Com o tempo soubemos que aquele professor tinha outra faceta inesperada: era o autor da guarânia Yo no sé por qué, que fazia parte de nossas serenatas.
Talvez por isso ensinava com uma sensibilidade distinta. Como se, além de observar tecidos ao microscópio, soubesse também escutar as pequenas melodias escondidas na vida.
Um dia, inevitavelmente, alguém lançou a pergunta que todos queríamos fazer.
Boggino sorriu melancolicamente e, com sua voz anasalada de fumante, começou a contar que, no final da década de 1950, as aulas foram suspensas por uma das tantas greves. Diante da perspectiva de perder o ano acadêmico, decidiu viajar à Argentina para continuar seus estudos em Buenos Aires.
Trompetista e amante da música, o destino quis que se cruzasse com Ben Molar, grande impulsor e mecenas de muitos músicos paraguaios na Argentina, a quem cantarolou a melodia que começava a tomar forma e pugnava por brotar na alma do estudante de medicina.
–Te dou três dias para que me traga completa, com letra e música, para gravá-la.
Boggino recordava essa cena rindo com nostalgia. Contava que se isolou e, ao terceiro dia, honrando seu compromisso, regressou com a obra terminada. Assim nasceu uma das mais belas guarânias.
Escutar esse relato diretamente de seu protagonista era um privilégio inesperado para um grupo de estudantes. Mas o verdadeiro legado daquele professor não estava só na medicina nem na música.
Com o passar dos anos, esqueci muitos detalhes daquelas aulas: os nomes de alguns tecidos, as classificações, certos diagnósticos difíceis.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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