Como o Paraguai se independizou da Espanha sem se submeter a Buenos Aires
Revolução de maio de 1811 marcou o processo único de independência na América Latina
Era julho de 1810 e o Paraguai ainda jurava fidelidade ao rei Fernando VII. Menos de um ano depois, um grupo de jovens oficiais desencadeava a independência do Paraguai. Que aconteceu nesses meses para que se tomasse na província uma decisão de mudança tão radical na postura política que desencadearia na Revolução de maio de 1811?
O professor de História César Cristaldo conversou com Última Hora sobre as causas geopolíticas daquele momento, que foram o caldo de cultura da independência. Citou a invasão inglesa ao Rio da Prata por um lado, a invasão napoleônica à Espanha e o interesse hegemônico de Buenos Aires, que desencadeou em duas famosas batalhas - Paraguarí e Tacuary - onde após a fuga do Governador Velasco, os paraguaios venceram Belgrano e tomaram consciência de sua capacidade de luta.
Esses e outros motivos levaram a buscar independizar-se da Espanha, por um lado, e a evitar ficar subordinado a Buenos Aires, por outro.
Para Cristaldo, é interessante que a façanha foi realizada sem ajuda estrangeira e citou os Estados Unidos como exemplo, que conseguiu apoio da França. Além disso, não foi uma revolução longa e não houve derramamento de sangue.
No início do século XIX, em 1804, foi declarada a guerra entre a Inglaterra e uma aliança entre Espanha e França, liderada pelo imperador Napoleão Bonaparte. A força naval inglesa derrotou na batalha de Trafalgar a franco-espanhola e confirmou a supremacia britânica. Assim chegou ao Rio da Prata, invadindo-o tanto em 1806 como em 1807.
A defesa de ambos os ataques foi organizada com apoio de tropas recrutadas de outras províncias, entre as quais se encontrava o Paraguai, que contribuiu com cerca de 550 soldados e oficiais em 1806 e outros 400 em 1807, onde vários morreram em batalha.
Os ingleses foram expulsos e o experiente Governador Velasco foi um dos chefes destacados da defesa. Entre os paraguaios, destacavam-se Fulgencio e Antonio Tomás Yegros, José Fernández Montiel, Cristóbal Insaurralde, Gervasio Acosta, Benito Villanueva, Fernando de la Mora e outros.
Ideias e influências europeias de revolução, sobretudo após a recente Revolução Francesa, influenciavam também comerciantes paraguaios que iam e vinham de Buenos Aires e por meio da Universidade de Córdoba, acrescenta o historiador.
Napoleão Bonaparte se converteu em Imperador em 1804 e desde o início do século buscava impor seu domínio sobre a Europa, seja por alianças ou pela via da conquista. Como não conseguiu submeter a Inglaterra, lhe declarou um bloqueio continental e proibiu o comércio com os ingleses buscando seu sufocamento econômico.
Na península ibérica, Portugal não quis ser partícipe de tal bloqueio e se recusou a participar, razão pela qual Bonaparte decidiu invadi-lo. Suas tropas deveriam cruzar pela Espanha e assinou um tratado com Manuel Godoy, primeiro-ministro ao qual um Rei Carlos IV - afastado dos assuntos políticos - havia delegado o poder.
O rei foi obrigado a renunciar em favor de seu filho, Fernando, a quem Napoleão aprisionou para entregar a coroa a seu irmão, José Bonaparte.
E isso influencia porque a Espanha fica sem cabeça. E essas notícias chegam ao Rio da Prata em 1810, sustenta Cristaldo.
O professor recorda que em consequência se estabelece em Buenos Aires o Cabildo Aberto do 22 de maio de 1810, uma assembleia extraordinária que marcou o início da revolução bonaerense, concretizada no dia 25 de maio, quando derrubaram o Vice-rei Baltazar Hidalgo de Cisneros.
A recém-criada Junta de Buenos Aires tinha as intenções de formar uma grande nação, que incluía o Paraguai, e com esse propósito enviaria seus delegados.
Quanto à situação paraguaia, Cristaldo recorda
o quanto foi controverso o Congresso do 24 de julho de 1810.
Trata-se do cabildo aberto no qual o Governador Velasco pergunta aos assuncenos sobre a postura que se ia tomar, se iriam permanecer fiéis ao rei ou apoiar a Junta de Buenos Aires. O resultado foi que o Paraguai não aceitou a autoridade de Buenos Aires e manteve sua lealdade ao rei.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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