Barcos encalhados e comunidades isoladas ante a drástica redução do rio Negro no Brasil
Crise hídrica coloca em risco turismo, transporte e abastecimento de água na região amazônica
Em Anavilhanas, um dos arquipélagos fluviais maiores do mundo, situado no rio Negro, no estado do Amazonas, a paisagem ficou irreconhecível: onde deveria correr a água sustentando as quilhas das embarcações, hoje se estendem quilômetros de areia salpicados apenas por pequenos espelhos de água.
A drástica redução nesta região localizada entre os municípios de Novo Airão e Manaus, a capital do estado, não apenas afeta o turismo e freia o transporte de passageiros, mas isola populações inteiras e impossibilita o transporte de mercadorias, em um território onde os cursos fluviais funcionam como rodovias naturais.
Como testemunho desta paralisação, o barco de passageiros 'Comandante Bob' jaz encalhado sobre a areia seca em plena praia do Camaleão, à espera de que a cheia do rio o procure novamente.
A cena, insólita pelo porte do navio, reflete a gravidade de uma crise hídrica que desafia a experiência dos próprios navegantes locais.
"Havia visto embarcações menores, mas um barco de madeira deste tamanho nesta situação no rio Negro, para mim é uma coisa nova, que não é comum que ocorra. Todos nós nos surpreendemos", relatou à EFE Roberto Moreira, barqueiro de 44 anos com mais de três décadas percorrendo estas águas.
O professor José Francisco Martins, da comunidade ribeirinha de Aracari, em Novo Airão, detalhou também que a redução do rio dificulta o abastecimento de água potável e deteriora o saneamento básico da comunidade.
"O problema é que o abastecimento de água na comunidade provém de um poço e, quando o rio baixa muito, o nível de água do poço também baixa e isso dificulta", contou o professor de 48 anos.
Em Manaus, cerca de 200 quilômetros rio abaixo, onde as águas do rio Negro confluem com as do Solimões para conformar o rio Amazonas, a diminuição é igualmente crítica.
Registros do Porto da capital situam o nível do rio em torno de 16,50 metros, o que representa um declínio de mais de dois metros frente ao início de outubro. Nesta mesma época do ano passado, o afluente superava os 19 metros.
Apesar da proximidade do chamado "inverno amazônico", como é denominada nesta região a temporada de chuvas que geralmente abrange de dezembro a maio, as perspectivas meteorológicas não convidam ao otimismo.
A influência do fenômeno de El Niño ameaça manter temperaturas elevadas e chuvas abaixo da média histórica no norte do Brasil, o que agrava o estiagem.
Até outubro as chuvas resultaram insuficientes para frear o declínio do rio Negro, cuja recuperação exige precipitações contínuas e muito superiores à média, especialmente nas cabeceiras das bacias, segundo alertam especialistas e instituições locais.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
Nossa equipe editorial trabalha para oferecer informação clara, completa e atualizada para o leitor brasileiro.