Autora infantil descobre que sua dependência de compras foi causada por medicamentos para síndrome das pernas inquietas
Sally Gardner passou duas décadas com comportamento compulsivo de compras sem saber que os medicamentos prescritos eram a causa
Uma descoberta após duas décadas
A autora infantil Sally Gardner experimentou durante 20 anos uma dependência de compras cuja causa desconhecia. Somente recentemente compreendeu que seu comportamento compulsivo foi consequência dos medicamentos que lhe foram receitados para tratar o síndrome das pernas inquietas (SPI).
Quando a carreira literária de Gardner decolou, seus amigos presumiram que seus gastos desmedidos eram resultado de seu novo sucesso econômico. Entre suas aquisições incluíam-se uma banheira de aproximadamente US$34.000, obras do artista pop Peter Blake e viagens frequentes a butiques parisienses.
Sucesso literário e mudanças na saúde
Gardner publicou seu primeiro livro pouco após completar 40 anos, o que a catapultou para o reconhecimento internacional. Sua obra alcançou a venda de 2,5 milhões de exemplares e obteve prêmios prestigiosos como a Medalha Carnegie.
"De repente, me vejo em outro lugar e, pela primeira vez na minha vida, ganho muito bem", comenta Gardner sobre esse período de transformação em sua carreira.
Porém, no mesmo período em que seu sucesso literário se consolidava, começou a experimentar sintomas do síndrome das pernas inquietas, uma afecção que padecia desde anos antes. Essa condição lhe gerava uma necessidade imperativa de se mover, particularmente durante as noites, limitando significativamente sua qualidade de vida.
Medicamentos e comportamento compulsivo
Seu médico lhe receitou agonistas de dopamina para aliviar os sintomas do SPI. Esses medicamentos atuam aumentando a atividade da dopamina no cérebro e são prescritos para diversas afecções, incluindo o síndrome das pernas inquietas, o parkinson, tumores da glândula pituitária e alguns problemas de saúde mental.
O tratamento proporcionou alívio imediato aos sintomas neurológicos de Gardner. Porém, durante as duas décadas seguintes, desenvolveu um comportamento compulsivo pelas compras que não podia explicar nem controlar.
Impacto financeiro e pessoal
O comportamento compulsivo de Gardner escalou rapidamente. Apesar de se sentir envergonhada pela quantidade de dinheiro que gastava, descrevia estar "viciada" na euforia que as compras lhe produziam. Acumulou dívidas importantes que a obrigaram a vender sua casa no norte de Londres e se mudar para um apartamento menor.
Mesmo após essa mudança, seu comportamento compulsivo persistiu. Gastou dezenas de milhares de dólares adicionais em design de interiores para decorar seu novo lar, chegando a perder aproximadamente US$650.000 no total durante esse período.
O impacto foi tão significativo que uma de suas amigas chegou a percorrer lojas em sua cidade, suplicando aos vendedores que não lhe vendessem produtos a Gardner.
Padrão identificado em outros pacientes
A experiência de Gardner não é isolada. Durante o último ano e meio, a BBC documentou centenas de casos similares de pacientes que sofreram efeitos colaterais psiquiátricos graves relacionados aos agonistas de dopamina.
Muitos pacientes e suas famílias declararam que não relacionaram seus comportamentos impulsivos com os medicamentos até que foi demasiado tarde. Registram-se histórias de dívidas significativas, relacionamentos rompidos e outros impactos severos na vida dos afetados.
Reflexão sobre o tratamento médico
Gardner descreve a confusão e angústia que experimentou durante esses anos: "Não tinha ideia do que tinha me acontecido. Era como se me perguntassem: Quem você é? O que está fazendo?"
O caso de Gardner ressalta a importância de uma comunicação clara entre profissionais médicos e pacientes a respeito dos possíveis efeitos colaterais dos tratamentos farmacológicos, especialmente aqueles que afetam a dopamina, um neurotransmissor envolvido em processos de recompensa e comportamento.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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