Agustín Barrios Mangoré: a música de um legado universal
82 anos após sua morte, o compositor paraguaio permanece no centro de um debate sobre nacionalidade, pertencimento e a verdadeira localização de uma obra transcontinental
O legado musical de Agustín Barrios
No dia 7 de agosto de 1944, há 82 anos, falecia em San Salvador Agustín Pío Barrios Mangoré com 59 anos de idade, deixando uma das obras mais extraordinárias jamás escritas para guitarra. Paraguaio de nascimento e universal por vocação, Barrios transformou um instrumento que poderia parecer limitado em um território quase infinito de possibilidades sonoras. Sua guitarra foi simultaneamente paisagem, memória, intimidade e pátria.
A cada aniversário de sua morte apresenta-se a oportunidade de repensar uma pergunta recorrente: onde deveria descansar Agustín Barrios? Desde há anos sucedem-se iniciativas para repatriar seus restos, sepultados no Cemitério dos Ilustres de San Salvador. Inclusive tem-se planteado uma solução tão simbólica quanto improvável: dividi-los, deixando uma parte em El Salvador e trazendo a outra ao Paraguai.
Porém, a verdadeira questão poderia não residir na localização de seus restos, mas no lugar que Barrios ocupa no mundo. Enquanto seus ossos permanecem em terra salvadorenha, sua música pertence há muito tempo a um território que não reconhece fronteiras.
Uma carreira entre continentes
As crônicas históricas assinalam que sua última apresentação no Paraguai teve lugar no dia 25 de janeiro de 1925, na praça Uruguaya. Por motivos políticos da época não podia atuar no então Teatro Nacional — atual Teatro Municipal —, de modo que aquele concerto ao ar livre converteu-se, em certo modo, em uma despedida. Depois vieram as viagens, as cidades, os palcos e um progressivo afastamento da terra natal.
Após uma turnê pelo Brasil em 1929, Barrios percorreu durante os anos seguintes distintos países da América Latina e Europa. Em 1939 aceitou o convite do presidente salvadorenho Maximiliano Hernández Martínez para radicarse em El Salvador. Lá exerceu a docência no Conservatório Nacional de Música e encontrou o lugar onde transcorreriam seus últimos anos.
Um infarto pôs fim a sua vida no dia 7 de agosto de 1944. Foi enterrado no Cemitério dos Ilustres. Em 1985 seus restos foram declarados patrimônio nacional de El Salvador, uma decisão que se converteu em um obstáculo jurídico para os sucessivos intentos paraguaios de repatriação.
O redescoberta de uma obra esquecida
A história de Barrios apresenta uma ironia significativa. O Paraguai reclama seus restos enquanto que durante décadas pareceu esquecer sua música.
Durante boa parte do século XX, sua obra não ocupou no Paraguai o lugar que hoje parece natural lhe conceder. Enquanto em outros lugares suas composições começavam a fazer parte do repertório violonístico internacional, em seu próprio país seu nome sobrevivia com uma presença mais próxima à lenda do que ao conhecimento profundo de sua produção.
Foi necessário que intérpretes e estudiosos empreendessem uma pacienciosa tarefa de recuperação. Cayo Sila Godoy, Felipe Sosa, Berta Rojas, Luz María Bobadilla e outros músicos contribuíram decisivamente para devolver Barrios ao centro da conversa musical paraguaia.
O redescoberta de Barrios não consistiu somente em voltar a escutar suas composições. Significou também compreender que o Paraguai havia produzido um músico capaz de dialogar com a tradição europeia da guitarra clássica e incorporar a sua obra as cadências, ritmos e sensibilidades da América Latina. Em suas mãos, a guitarra podia ser universal sem deixar de ser paraguaia.
Uma pergunta que transcende o geográfico
A discussão sobre seus restos encerra, no fundo, uma questão mais complexa: a quem pertence Agustín Barrios?
O Paraguai pode reivindicá-lo como um de seus filhos mais ilustres. El Salvador pode recordar que lá viveu seus últimos anos, exerceu a docência, morreu e permanece sepultado. A América Latina pode considerá-lo um de seus grandes músicos.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
Nossa equipe editorial trabalha para oferecer informação clara, completa e atualizada para o leitor brasileiro.