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Cultura

Agosto poty

21/08/2026 14:15 4 min lectura 26 visualizações

Os que vemos o renascimento do interesse dos jovens por canções como Trece Tuyuti, de Emiliano R. Fernández, a valorização da gastronomia paraguaia como o típico vori vori, caldo ou sopa – como dizem lá fora –, que conquista os especialistas do mundo, e as expressões em guarani que adotam os citadinos em ambientes antes impensáveis, nos surpreendemos com o grande interesse que desperta hoje nossa cultura.

Inclusive há garotos que traduzem ao guarani cenas de filmes de forma espetacular, e também há crianças influenciadores que utilizam com perfeição e com elegância nosso, antes, tão desprezado idioma nativo. A criatividade de cada geração adiciona seu tempero especial e sua engenhosidade ao herdado desde tempos remotos.

E se respeitamos a essência do recebido, que descobrimos graças à nossa inteligência, que é capaz de encontrar o verdadeiro, selecionar o bom e descartar o vulgar e deformado, é uma maravilha que assim se dê essa transmissão dos valores, crenças, linguagem, expressões artísticas, atitudes ante a vida, et cetera, que conformam toda uma riquíssima cosmovisão do mundo.

Para o famoso escritor e acadêmico de Oxford e Cambridge, C. S. Lewis, inclusive os mitos não eram mentiras inúteis, senão veículos poderosos de uma verdade profunda. Sustentava que, na vida comunitária dos povos com identidade própria, o mito é um "destello real, aunque difuso, de verdad divina" que toca a imaginação humana.

Sempre que aprofundemos além da superfície e sempre que não traamos por caminhos facilistas ou consumistas a tradição que recebemos abundantemente de nossos avós, esse auge de fascinação pela cultura é interessantíssimo e está cheio de sentido. Como dizia o grande ensaísta G.K. Chesterton em seu livro Ortodoxia, a tradição é como a "democracia dos mortos". Para ele, significa dar voto à classe mais humilde e esquecida: Nossos antepassados, negando-nos a nos submetermos à arrogante oligarquia das massificações e modas passageiras.

Se o pensamos bem, a tradição rejeita a soberba de pensar que as ideias atuais são sempre as melhores apenas por serem novas. E para isto Chesterton dava a famosa imagem daqueles imprudentes que querem remover uma cerca do caminho sem antes compreender com clareza a razão exata por que foi colocada ali em primeiro lugar. Para ele, a sabedoria acumulada da humanidade nos protege de cair na frivolidade das modas que desumanizam e quebram as comunidades. E tem razão, o vemos nas sociedades modernas que renunciaram às suas raízes culturais e agora vagam sem rumo no inverno da solidão e da violência.

A tradição tem a virtude de equilibrar o racional com o mistério da vida. Como o poeta que tem um farol de luz na escuridão, e diferentemente do louco racionalista, não se move em um diminuto círculo "lógico" tentando explicar tudo mediante uma única causa, perdendo assim seu senso comum. É mais saudável a pessoa que aceita que o mundo é misterioso e contraditório e que nem tudo se pode decifrar. Neste sentido a tradição cultural nos permite manter-nos em equilíbrio, ainda que tenhamos um pé no ar da fantasia, respeitando a liberdade humana e a vontade.

Mais do que nunca necessitamos desmamar, limpar e custodiar o ykua de água pura de nossa cultura hispano-guarani. Dela podemos beber com calma e revitalizar nossa convivência cotidiana, superando os preconceitos do paradigma materialista e das colonizações ideológicas que secam os poços existenciais de nossa época e nos fazem caminhar sedentos.

Em um mundo que se empobrece no humano e tremula não apenas em suas estruturas tectônicas, senão também geopolíticas e culturais, a riqueza do Paraguai profundo se conserva entre a gente comum, resiste sem violência e nos atrai porque tem em sua essência aspectos valiosos para caminhar com luz nestes tempos escurecidos.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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