A verdade como fundamento da vida comum
A erosão silenciosa dos fundamentos
Quando se enfraquece a capacidade de admiração diante da realidade, os efeitos se estendem para a compreensão que uma sociedade tem sobre a política, o direito e a educação. As instituições podem manter sua forma exterior enquanto seus princípios originários se erosionam gradualmente. Uma democracia pode preservar eleições, leis e tribunais, embora tenha perdido o fundamento que legitima sua existência.
A questão determinante transcende o funcionamento de um regime político e se encontra na concepção do ser humano que o sustenta.
A herança filosófica ocidental
A democracia pressupõe uma ideia particular sobre a pessoa, sua dignidade e os limites do poder. Constituições e declarações de direitos traduzem essa convicção na linguagem jurídica. O Ocidente herdou esse legado através de um prolongado diálogo entre Atenas, Roma e Jerusalém. A filosofia grega, o direito romano e o pensamento cristão foram moldando uma concepção de pessoa que impregnava as instituições políticas modernas.
A liberdade, a responsabilidade moral, a dignidade e a existência de direitos anteriores ao Estado não surgiram espontaneamente. Representam conquistas intelectuais resultado de séculos de reflexão. Por essa razão é necessário recuperar a memória filosófica. Uma sociedade que esquece a origem de seus princípios tende a acreditar que estes emergiram por si mesmos.
A distinção entre legalidade e justiça
A democracia se converte então numa técnica para administrar consensos, e a legalidade começa a se confundir com a justiça. A história demonstra quão frágil resulta essa identificação. Existiram leis injustas, parlamentos que aprovaram perseguições e governos eleitos democraticamente que eliminaram liberdades fundamentais.
A lei requer uma medida que a transcenda. O direito deve ser expressão de uma razão vinculada à natureza humana. A justiça não nasce da vontade da lei, mas a lei aspira a reconhecer uma justiça que a precede. Toda decisão política encerra uma ideia do bem humano. Quando essa pergunta desaparece, a eficácia ocupa seu lugar.
A transformação do debate público
A transformação se adverte claramente na linguagem política contemporânea. A deliberação retrocede diante da comunicação estratégica, o argumento cede diante da consigna e a complexidade se desvanece frente a frases destinadas a provocar reações imediatas. As redes sociais intensificaram esse processo, convertendo boa parte do debate público num fluxo de imagens, indignações e respostas instantâneas.
Educação para a liberdade
Toda grande crise histórica se revela como uma crise educativa. Antes de modificar suas instituições, uma civilização modifica a maneira em que transmite sua herança. Quando essa transmissão se enfraquece, as novas gerações habitam um presente sem genealogia.
Educar implica perguntar-se que classe de ser humano se deseja formar. Nenhum sistema educativo é neutro. Todo programa, método e critério de avaliação encerra uma concepção de pessoa. A educação contemporânea incorporou progressivamente a linguagem da competitividade, da produtividade, da inovação e da empregabilidade. Esses critérios respondem a necessidades reais.
O desafio aparece quando ocupam todo o horizonte. A universidade corre risco de formar profissionais altamente especializados e perder sua antiga missão de formar inteligências capazes de compreender o conjunto. O especialista num campo particular pode coexistir com ignorância a respeito das questões fundamentais que articulam a cultura.
As humanidades têm a tarefa de conservar esse horizonte integral, permitindo que a formação técnica se complemente com a reflexão profunda sobre o sentido e os valores que sustentam a vida em comum.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
Nossa equipe editorial trabalha para oferecer informação clara, completa e atualizada para o leitor brasileiro.