A perigosa justificação
Com frequência há uma tentativa de justificar aquilo que até sabemos não tem como corresponder com tal valor. Uma espécie de mecanismo de defesa para estabilizar a consciência e continuar apertando o botão ou puxando o gatilho.
O autor italiano reconhece que todo ser humano possui exigências inalienáveis de verdade, justiça, amor e liberdade. E como fazem parte de sua estrutura, estas serão como "centelhas" que não deixarão de brotar de seu interior durante toda sua existência; "perturbando" o viver cotidiano, buscando correspondência no agir humano, provocando inquietações e perguntas.
Nestes tempos em que o Estado e os governos têm o poder de decidir quem possui o direito de viver e quem não; e promove leis para facilitar a eliminação de seres humanos, é possível observar justificativas adaptadas às ideologias do momento. A questão passa por não olhar a verdade de frente, não reconhecer a gravidade do fato; evitar chamar o pão de pão.
Vem ao caso, por exemplo, as leis sobre eutanásia e o suicídio assistido em vários países, introduzindo conceitos como "morte digna" em casos de doenças graves e incuráveis. São temas complexos e dramáticos, pois não corresponde julgar a dor e a vivência de quem a padece. Mas diante de semelhante cenário, sempre estará uma verdade objetiva e dura de assumir: A vida do ser humano é um bem supremo inviolável, não nos corresponde destruí-la; e toda morte provocada constitui a priori uma ofensa e violência à dignidade humana, não adequada a sua natureza. Por isso, promover o compromisso e a aplicação de cuidados paliativos e o esforço de toda a ciência médica em lugar de acabar com a vida do paciente será ao final uma alternativa mais acorde à realidade da vida; ela não nos pertence. Urge — neste sentido — apontar o compromisso do Estado para que garanta a devida atenção sanitária às pessoas que sofrem lesões corporais ou doenças graves e incuráveis, especialmente quando se trata dos mais vulneráveis economicamente. Algo similar ocorre com a iniciativa recentemente apresentada por partidos de direita no Chile, com o projeto de lei conhecido como "Escuta seu coração" que propõe que os médicos tenham a obrigação de informar sobre a atividade cardíaca fetal e oferecer a escuta dos batimentos antes de um aborto legal sob três causais existentes naquele país. Seus detratores, setores de esquerda, organizações feministas e de direitos humanos, a qualificam de medida "cruel e desumana", enquanto seus impulsores defendem que a medida aprofunda o "consentimento informado", permitindo que a mãe tome uma decisão com plena consciência da atividade vital do feto. Para além de que para muitos eliminar um ser humano inocente e indefeso não pareceria tão "cruel e desumano" quanto que a mãe tenha a obrigação de escutar os batimentos do coração de seu filho antes de tomar uma decisão, o ponto é que nos encontramos diante da tentativa de anular um dado-chave que coloca em clara evidência que o ato a ser praticado é altamente grave. Não é um aglomerado de células. Não é um número ou código. É uma vida, um ser humano pequeno. Buscando justificar uma ação, que se considera válida e naquele país um direito legal, se pretende rejeitar uma evidência. As justificativas exigem autocrítica para que não se tornem "elefantes em uma loja de cristais", como dizia um amigo. Existem de todos os gostos e níveis, mas se não as questionarmos, não só se pode terminar atentando contra questões de existência vital, como também seguir reproduzindo um sistema destrutivo social, coagindo ou votando em políticos corruptos com alguma justificativa internamente válida, mas longe da justiça baseada na dignidade da pessoa e no bem comum.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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Transfiguração do Senhor