Yacyretá é um exemplo do grosseiro desperdício e repartição de privilégios
Cabem muito poucas dúvidas de que o Paraguai é um país tremendamente desigual; não somente quanto à concentração da riqueza e o acesso à segurança, saúde e educação, mas também aos terríveis efeitos da corruptela imperante que determina o uso dos recursos públicos.
Exatamente como revela a investigação que vem publicando ÚH sobre as bonificações milionárias que recebem funcionários da Binacional Yacyretá.
No mês de março, além dos salários milionários, os incentivos alcançaram o montante de G. 4.305 milhões, que equivale a mais de USD 684.000.
As bonificações são compensações que se outorgam aos trabalhadores em conceito de antiguidade, título universitário, zonificação, desenraizamento, ajuda escolar e horas extras. Como exemplo, no caso do diretor de Yacyretá, Luis Benítez, alcançou o montante de G. 54.303.995, que somado a seu salário básico de G. 71.857.990, mais G. 10.807.500 de diárias cobradas, converte-se numa retribuição total de G. 136.969.485 mensais. Esse montante é maior do que o que percebe o próprio presidente da República, cuja renda mensal mais gasto de representação chega a G. 37.908.800.
O caso é muito similar ao que se produz em outras instituições como, por exemplo, o Instituto de Previsão Social (IPS), e outras hidrelétricas e, claramente, desafia a proclamada economia de guerra anunciada pelo anterior ministro da Economia.
Na escala dos que percebem os maiores salários atrás do diretor paraguaio de Yacyretá, encontram-se os membros do Conselho de Administração que cobram salários e bonificações milionários: Cada conselheiro cobra G. 49.903.240 em conceito de bonificação, que se soma a seu salário básico de G. 63.056.480, com o que no total ganham mensalmente G. 112.959.720, o que equivale a quase três vezes do que ganha o presidente da República.
Chama a atenção, mas não surpreende; contudo, que na lista dos conselheiros privilegiados encontremos membros da Junta de Governo da ANR, ex-prefeitos colorados, e pessoas associadas, todas ao Partido Colorado. Isso implica um tratamento desigual para milhares de profissionais paraguaios que legitimamente poderiam aspirar a trabalhar numa binacional, sem mencionar que exclui também paraguaios adscritos a outros partidos políticos. O acesso à função pública está quase vedado –como nos velhos tempos da ditadura de Stroessner– a quem não porte a carteira de afiliação à ANR ou mesmo com carteira deva situar-se no setor governista para aspirar a um posto. Além de tudo, deve-se mencionar a visão clientelista do Estado imposta por décadas pelo Partido Colorado, onde se intercambiam favores, apoios e votos, e onde os recursos públicos se distribuem de maneira imoralmente seletiva.
As binacionais devem deixar de ser um espólio político porque estas pertencem ao Estado paraguaio, não são propriedade de nenhum partido político.
Repartir salários milionários em bonificações entre os correligionários mostra a profunda falta de ética de nossa classe política, revela os valores que sustentam autoridades e funcionários e põe em evidência que aqueles sempre antepõem seus próprios interesses acima do bem-estar do povo.
A classe política, as autoridades eleitas e os funcionários devem deixar de pedir sacrifícios ao povo ou propor economia de guerra. Os trabalhadores, os cidadãos que sustentam o Estado com seus impostos merecem respeito e o primeiro passo é eliminar os obscenos privilégios.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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