Um tema nietzschiano e uma nota stravinskiana
No apartado 38 de A Gaia Ciência (1882), intitulado "Os Explosivos" [Die Explosiven], Friedrich Nietzsche fala "da força dos jovens", ou seja, conforme ele, de sua proclividade a "explodir": de sua energia química [die Kraft junger Männer]. Muito à sua maneira, Nietzsche fala tanto dos jovens anarquistas russos do terrorismo suicida contra o czar daqueles anos (retratados antes por Dostoiévski em Os Demônios), como prefigura os campos de batalha europeus repletos de mortos jovens da Primeira Guerra Mundial, a primeira guerra quimicamente pura em um sentido literal.
Os jovens são barris de pólvora, diz Nietzsche: Die Pulverfässer. A estes "explosivos" não lhes interessam as justificações de uma causa, senão "o pavio aceso" da paixão fanática: Die brennende Lunte. Por isto, diz Nietzsche, aos mais "refinados" dos sedutores de massas tampouco lhes interessa dar a conhecer as supostas razões de suas causas. Está pensando também o filósofo em todo fervor, religioso ou político. Mas está pensando, sobretudo, nos fervores da juventude alemã da era de Bismarck: o nacionalismo patrioteiro e o wagnerismo antissemita que pouco antes havia feito triunfalmente a guerra à França (1870-1871) e estava industrializando à sua forma, porém aceleradamente, a Alemanha dos junkers: os latifundiários aristocratas que condescenderam a uma industrialização conservadora. Ou seja, a Nietzsche lhe rebelava algo que nos "anos do colapso" de sua loucura clínica deixaria dito em seu panfleto poético-filosófico "Nietzsche contra Wagner", de 1888-1889: a mistura de má estética e má política, o fascismo. Legal.
Poderíamos dizer, fazendo um paralelismo com os imaginários da ultradireita atual, que Nietzsche abominava de uma mitologia cristão-pagã de corte folclórico (como entre as forças MAGA oficiam o xamanismo indigenista e o Self-Made Man rural); e o pop grandiloquente e kitsch de corte às vezes "pessimista" (como entre as forças antitrumpistas da cultura, do tipo de Billie Eilish ou Lady Gaga). Para Nietzsche, a juventude alemã de fim de século se entupía com um conteúdo político e uma embalagem artística conservadores e de mau gosto: o Parsifal, de Richard Wagner, e os canhões de Bismarck, dois inimigos do autor de Para Além do Bem e do Mal. O "divino tesouro" nostálgico de um leitor centro-americano de Nietzsche e ouvinte de Wagner, Rubén Darío, era para o alemão uma "divina explosão" com música de metais e deuses nórdicos da morte: uma carne de canhão.
Três semanas antes de Sergei Diaghilev falecer em 1929, o famoso empresário e produtor russo de balés se cruzou nos corredores de um trem de Paris a Londres com Igor Stravinski. Mais de vinte anos antes, conjuntamente russos haviam sacudido a capital francesa com os golpes sonoros de três balés aos quais o compositor pôs música celebremente, entre 1910 e 1913: Petrushka, O Pássaro de Fogo e A Sagração da Primavera. Poucas experiências da arte geram o sentido de emotividade pura, física, e profundidade orquestral como estes balés cujas partituras foram sucessivamente modificadas nas décadas seguintes: Organismos sempre vivos mais de cem anos depois. O que não é pouco dizer.
Entretanto, naquele vagão em penumbra Diaghilev e Stravinski, roçando-se um ao outro, fizeram como se não se houvessem visto. Como se não se conhecessem tamanhos fazedores. Não era a primeira vez, também muito seguramente, que isto acontecia na história da arte, nem seria a última.
Esta nota a pé de página, incluída no livro Stravinski: discoveries and memories de Robert Craft, mostra algum desacordo com esta cena de desconhecimento mútuo. Entretanto, após o que em guarani paraguaio chamaríamos "lente hû", termina-se confirmando a cena do ñembotavy à russa: "Isto foi refutado com o argumento atribuído a [Sergei] Prokofiev, segundo o qual uma vez que Diaghilev...
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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