Um partido que nos pinta um pouco como sociedade
O otimismo no microcentro de Assunção era avassalador, e imagino que ocorria o mesmo em muitos outros lugares. Está bem, era talvez uma expressão de desejo mais que uma análise crítica do ponto de vista futebolístico, porque caso contrário já apareciam qualificativos como "antipatrióta", "pessimista" ou "negativo". É o que ouvi até de renomados jornalistas esportivos.
Voltando ao encontro com a bola, após o primeiro gol parecia que o nervosismo se apoderou completamente dos jogadores paraguaios. Apareceram então a confusão, a abuilia recalcitrante, o espanto e a apatia. Era já um jogo de bola medíocre para o time dirigido por Gustavo Julio, que — segundo opinião de muitos — não fez a tempo as mudanças que se precisavam. Assim se foi o primeiro tempo com três a zero a favor dos donos da casa.
Na segunda parte houve um pouco mais de cuidado para não sofrer tantos gols a mais, mas não foi suficiente, e parecia (pelos substitutos e pela atitude mesma) que os estadunidenses tiraram o pé do acelerador, lembrando-me ao pesadelo para o Brasil daquela Alemanha de 2014 que converteu cinco gols diante da pentacampeã do mundo em 45 minutos, embora depois registrasse apenas dois mais.
Retornando ao caso do Paraguai, entendo que o brasileiro-paraguaio se destacou pela segunda vez, pisando bem para ser titular no próximo desafio, formando dupla seguramente com Julio César. Até fez sua estreia nas redes do adversário. De pouco a ressaltar.
Porém, estamos em uma competição desportiva, assim que há revanche muito em breve e as sensações podem se reverterem em uma semana, mais ainda sabendo o marcador entre Turquia e Austrália. Isso é o lindo do futebol, já qualificado hoje como "pósfutebol" por conhecedores como o chileno Juan Pablo Meneses (uma matéria com ele está em BBC News Mundo).
No caso da sociedade, as revanchas aparecem a cada cinco anos (se é que não há pandemia que a aproveitem para se estenderem um pouco mais nos cargos). Estamos próximos de uma dessas oportunidades e depois a não chorar se não cumprirmos com nosso direito e obrigação.
Não deixemos que o desalento nos sustente para não irmos votar. Não permitamos que o cansaço vença para que não façamos o que devemos fazer sempre que podemos: jogar o lixo na lixeira, respeitar a fila, dar o assento a quem mais o necessite no ônibus, saudar os demais, seguir as regras de jogo e não simular uma falta, corrigir as normas que tenham que se reformarem, pagar nossos impostos, ajudar a quem esteja precisando de uma mão com sua carga, que os acompanhemos um trecho ou oferecer-lhes amablemente aproximá-los em nossos automóveis.
Basta do individualismo voraz. Que não triunfe o desânimo. O mundo é mais que as redes sociais ou a virtualidade, é um abraço caloroso, são as palavras de encorajamento em ondas analógicas. Há que repartir sorrisos apesar de um mau partido, e enfurecer-se com quem verdadeiramente está nos deixando sem alegrias, com sonhos quebrados, esses mesmos que buscaram aproveitar-se de uma ilusão coletiva desde as eliminatórias, desde o próprio estádio da estreia.
Devemos aprender a saber cumprir com nossas responsabilidades civis, e reclamar quando seja necessário. Não vale sair por milhares a alentar uma seleção de jogadores, mas não nos movermos para exigir mais às autoridades em questão. De ser assim vamos continuar com a maltratada educação, com a saúde morrendo e com a insegurança que restringe nossa liberdade. É momento de parar a bola e pensar bem para onde passá-la (ou chutar à porta com acerto). De outro modo, além de nós, nossos filhos e netos serão as próximas vítimas do calamitoso Estado em que estamos. Sejamos bons e boas, embora custe, que os gols e as vitórias virão. Feliz semana.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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