Um cidadão americano faz o que quer
A história de Edward Augustus Hopkins e seu conflito com o governo paraguaio no século XIX
Edward Augustus Hopkins havia pisado o Paraguai pela primeira vez em 1845, como jovem agente especial do Departamento de Estado. Voltou em 1853 com credencial de cônsul e um cargo mais sonoro: agente geral da United States and Paraguay Navigation Company, sociedade formada com capitais de Rhode Island — por isso as fontes a chamam, simplesmente, "a Companhia de Rhode Island" — para explorar a navegação e a indústria no coração da América do Sul.
Don Carlos Antonio López o recebeu de braços abertos. Longe da imagem do déspota hostil ao capital estrangeiro, o presidente colmou de favores o recém-chegado: quando um dos navios da companhia naufragou na costa do Brasil com valiosas mercadorias, o próprio governo acudiu em auxílio da empresa, e o Tesouro nacional chegou a emprestar-lhe dez mil pesos com juros. Com esse vento a favor, Hopkins montou uma fábrica de cigarros em Assunção, um serraria a vapor e uma olaria em San Antonio, ocupou o antigo quartel dessa vila e comprou terras adjacentes para suas operações.
Os documentos da época retratam um personagem insuportável: o Juiz de Paz de Ipané teve de retirar-lhe dez peões pelos trabalhos excessivos e a péssima alimentação que lhes dava — "um real de carne e meio de mandioca para 14 homens", consta no expediente —; acumulou dívidas com comerciantes da praça como Esteban Rana e Rudert (mil onças de ouro) e os senhores Puig e Cramon; e distribuía exigências amparado na fanfarronice de que "um cidadão americano faz o que quer".
Chegou a pedir terras, cinco mil pesos de dotação estatal e dez anos de isenção de impostos para uma escola de agricultura, com o detalhe adicional de que a redação de El Semanario — o periódico oficial — ficaria nas mãos de seu irmão Clemente.
Foi justamente Clemente quem acendeu o pavio. No inverno de 1854, cavalgando em companhia de uma dama francesa — a esposa do vice-cônsul da França, segundo algumas versões —, dispersou uma tropa de bois do Estado. O soldado que os conduzia — um tal Silvero, segundo um expediente — desferiu um golpe de sabre: as fontes discordam sobre se o golpe caiu sobre Clemente ou sobre a dama, mas concordam no que veio depois. Em lugar de apresentar a queixa pela via diplomática, o cônsul exigiu o fuzilamento do soldado e, ante a recusa de López — que após investigar o caso lhe impôs apenas alguns dias de prisão —, irrompeu na casa de governo em traje de montaria e com o chicote na mão, descarregando sobre o presidente e sua família insultos que as notas oficiais da época qualificam de inauditos.
Em 23 de agosto de 1854, tropas paraguaias ocuparam o estabelecimento de San Antonio, cuja compra foi declarada nula: Hopkins havia adquirido o terreno de maneira fraudulenta a uma viúva, sem autorização judicial, sendo seus donos legítimos uns herdeiros menores de idade — os filhos da viúva de Ramón Zelada —. O governo ordenou restituir a terra aos menores e devolveu o dinheiro ao norte-americano, que se recusou a recebê-lo. Em 1º de setembro lhe foi cancelado o exequátur, isto é, o reconhecimento de seu caráter consular.
Vieram depois os decretos que obrigavam todo estrangeiro a obter licença para exercer o comércio. Quando Hopkins solicitou a sua sob o título de "Agente Geral", responderam-lhe que semelhante título não era reconhecido: a fábrica de cigarros ficou sequestrada, as máquinas — incluída uma grande máquina de serrar — foram inventariadas e postas em depósito, e as terras restantes foram adjudicadas ao Estado em conta das crescidas dívidas que o empresário mantinha com o fisco. No final de 1854, Hopkins abandonou o país com um aviso formal que não admitia releituras: "não será admitido na República com nenhum pretexto, nem objeto".
De Buenos Aires, Hopkins publicou em 1856 um panfleto de título elocuente — La tiranía del Paraguay á la faz de sus contemporáneos — enquanto...
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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