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Cultura

Ulisses: o arquétipo da filosofia e da existência humana

22/08/2026 11:45 4 min lectura 24 visualizações

Ulisses como espelho de nossa existência

Quem é Ulisses? Somos nós mesmos. Homero nos legou a grande metáfora de nossa vida, conceito desenvolvido pelo filósofo espanhol Jacinto Choza em sua obra Ulisses, um arquétipo da existência humana. Tudo começa com a partida: Ulisses abandona Ítaca, e viver é precisamente isso, sair da segurança original e ingressar num mundo que não controlamos.

O que sucede depois — monstros, tempestades, guerras, perdas — são as provas que nos vão formando: não acidentes externos isolados, mas a matéria fundamental com a qual se constrói uma vida. No caminho aparecem os perigos — Circe, Calipso, as sereias, os lotófagos —, maneiras de nos desviarmos do próprio destino mediante o prazer ou uma vida aparentemente feliz. Ulisses, uma e outra vez, escolhe continuar.

A identidade através da narrativa

Daí surge a pergunta filosófica central: se Ulisses muda sem cessar, o que faz com que ele continue sendo ele mesmo? A resposta reside no relato mesmo. Nos compreendemos quando somos capazes de reconstruir e contar nossa própria história. Em última instância, somos o que pudemos fazer com nossa biografia.

A razão frente ao mistério

Existe, porém, uma dimensão maior: a razão e o mistério. Em sua viagem a Ítaca — nosso retorno a casa —, Ulisses sempre pressiona os limites da razão. Luigi Giussani, sacerdote e teólogo italiano, observou com particular clareza em seu texto O sentido religioso como funciona a razão humana de maneira fundamental. Giussani recorre a Ulisses e a um lugar específico do mapa antigo, as Colunas de Hércules, para explicar este fenômeno.

A razão nunca se conforma com o imediatamente conhecido. Cada objeto que a inteligência alcança não fecha a pergunta, mas a reabre num horizonte mais amplo: não persegue o «quê» das coisas, mas seu «por quê» final. Conhecer não se reduz a resolver um problema; remonta-se a algo mais profundo, ao mistério. As Colunas de Hércules, que marcavam o limite do mundo conhecido na geografia mítica antiga — o estreito de Gibraltar —, representam a borda que a razão encontra uma e outra vez: o limite do verificado, do já sabido.

A metáfora exata da filosofia

Aí se encontra, acreditamos, a metáfora precisa da filosofia: a de um saber que avança sempre, coluna após coluna, sabendo de antemão que sua razão é limitada e que nenhum esforço próprio é suficiente para franquear o último limite. Não por isso se detém, porque fazê-lo seria trair a exigência mesma que a constitui.

É precisamente nessa borda, não antes, onde aparece o mistério: não como um inimigo da razão nem como uma renúncia a pensar, mas como aquilo que a razão mesma aponta sem poder alcançá-lo por suas próprias forças. Filosofar é sustentar essa tensão sem resolvê-la por atalhos.

Um clássico que permanece vivo

Ulisses não pertence a nenhuma ideologia, e por isso segue vivo. O escritor italiano Italo Calvino assinalou que um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem a dizer. O regresso a Ítaca não é simplesmente voltar ao ponto geográfico. É voltar ao que deveríamos ser, depois de termos sofrido, aprendido e mudado.

Uma vida, aliás, que não é solitária. Penélope, Telêmaco e os demais devem reconhecê-lo, assim como nós também precisamos ser reconhecidos. A jornada de nossa vida está atravessada pela consciência da morte — Ulisses inclusive desce ao Hades —: precisamente porque a vida é limitada.

Ler novamente a Ulisses é o antídoto mais eficaz contra o que C. S. Lewis chamou de soberba cronológica: acreditar falsa uma ideia apenas por ser antiga. Acessar os clássicos é a proteção contra o subjetivismo e o individualismo tão característicos de nossa época: nos recordam que não somos a medida de todas as coisas.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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