Trem de cercanias: Assessoria técnica indispensável
O trem de cercanias é uma real necessidade. Porém, é um fato incontestável que o projeto foi concebido "top-down" e avançou sob um procedimento de exceção regulatória que vulnera os padrões internacionais e as melhores práticas recomendadas por organismos multilaterais para a gestão de infraestruturas complexas. A adjudicação direta mediante uma Lei Especial que exclui taxativamente os marcos normativos vigentes de Contratações Públicas e Concessões, somada à alarmante ausência de estudos independentes prévios de factibilidade socioeconômica e de uma análise robusta de alocação de riscos, coloca o Estado paraguaio em uma situação de extrema vulnerabilidade técnica, jurídica e financeira.
Contudo, diante do cenário irreversível da sanção legislativa e da iminente conformação da Sociedade de Propósito Especial (SPE), a discussão pública não deve se paralisar na crítica à origem do processo, mas se voltar com urgência para a mitigação de suas consequências.
O projeto se encontra em um ponto de inflexão crítico: a fase de engenharia fina e a posterior redação do Contrato Final de Concessão. É precisamente neste documento vinculante onde se definirão as "letras miúdas" que comprometerão os cofres do Estado pelos próximos 30 anos, muito especialmente através da polêmica figura da Renda Mínima Garantida (RMG). Permitir que a mesma empresa beneficiária do subsídio seja a encarregada de determinar, sem contrapesos, os custos de construção (CAPEX), as despesas de operação (OPEX) e as curvas de demanda, constituiria um ato de severa imprudência fiscal.
Portanto, torna-se crucial, crítico e inpostergável que o Estado paraguaio assuma uma postura de estrita defesa patrimonial mediante a contratação imediata de uma Consultoria de Engenharia Ferroviária de Alto Nível Internacional.
Esta firma independente não operará como um obstáculo ao projeto, mas como o único "equalizador" técnico e intelectual capaz de auditar os estudos do proponente privado, sincerar os custos de mercado, neutralizar os incentivos perversos de superdimensionamento e, fundamentalmente, assistir ao Governo na redação e blindagem do Contrato Final de Concessão.
O principal problema do trem de cercanias não é a tecnologia nem a necessidade do usuário, nem mesmo o financiamento emiradense, mas a assimetria total na mesa de negociações em que o Estado paraguaio se encontra tecnicamente desarmado diante de um gigante corporativo global.
A incorporação de um consultor ou firma independente de primeiro nível internacional (como IDOM, INECO, EGIS ou TYPSA) opera como o grande equalizador desta história. Suas vantagens se resumem em três impactos imediatos para o país.
Transforma a "caixa preta" em transparência: Ao auditar a engenharia fina e o modelo financeiro da SPE antes de assinar o contrato definitivo, obriga a sincerar os custos de construção (CAPEX) e operativos (OPEX), evitando que o Paraguai pague um sobrecusto inflado pela subcontratação em cascata.
Desativa a bomba-relógio da RMG: Ao corrigir as projeções de demanda elástica e exigir o desenho da rede de alimentação de "última milha" (ônibus integrados e bilhetagem), o consultor minimiza o risco de que o trem funcione vazio e o Estado deva ativar a Renda Mínima Garantida, conseguindo que a consultoria se pague sozinha economizando apenas alguns meses desse subsídio cego.
Contribui com os Checks and Balances ausentes: Supre a alarmante falta de massa crítica da FEPASA e atua como o blindagem técnica que o MOPC e o Ministério da Economia necessitam para exercer um verdadeiro poder de veto e controle de qualidade, tanto nas fábricas dos trens a bateria quanto na obra civil em Assunção e Luque.
Em definitiva, a assistência de uma consultoria competente é a linha tênue que separa este projeto de transformação em um projeto de transformação genuína ou em um passivo contingente de trilhões de guaranis para as gerações futuras.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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