Quando a sociedade muda, mas a política não
O resultado surpreendeu grande parte dos analistas políticos que prognosticavam uma vitória do candidato do Partido dos Trabalhadores, devido a que a maioria dos dados econômicos e sociais eram muito positivos.
Durante este terceiro mandato de Lula, a economia do Brasil havia crescido perto de 3%, o desemprego de 5,3% era o mais baixo dos últimos 15 anos e a inflação de 4,5% estava totalmente controlada.
Por outro lado, o emblemático programa social de transferência monetária – chamado Bolsa Família – foi relançado com um gigantesco orçamento de mais de USD 30.000 milhões.
Por tudo isto, ao início da carreira presidencial, todas as pesquisas indicavam que o carismático líder sindical parecia ter a reeleição assegurada.
Porém, os números da economia não refletiam o profundo descontentamento social que se vivia nas cidades brasileiras. Mal-estar com uma insegurança crescente que gera medo, com um transporte público deficiente que é uma tortura diária para milhões de cidadãos, com um emprego precário e com baixas remunerações que faz com que as expectativas futuras para o trabalhador e seus filhos sejam muito pessimistas.
Este descontentamento também é consequência de uma enorme mudança socioeconômica que fez com que a sociedade brasileira que 20 anos atrás era representada por uma pirâmide, com uma ampla base de setores pobres e uma estreita cúspide de setores de altos ingressos, hoje se transformasse em um losango, com uma classe média que cresceu, que ganha cada vez mais protagonismo e que vive nos bairros periféricos das cidades.
Grande parte desta análise do ocorrido no Brasil pode ser aplicada quase totalmente ao ocorrido no Paraguai, onde também nossa sociedade se transformou profundamente.
Mas pareceria que a política segue pensando igual. Uma grande parte das respostas do Estado continua girando em torno a uma visão tradicional de uma pobreza rural, com programas de transferências monetárias condicionadas como instrumento central.
Estes programas cumprem uma função muito importante e devem continuar, mas o problema é quando se convertem na principal resposta política de um Estado que deve atender uma sociedade muito mais complexa e em permanente transformação impulsada pela tecnologia, os relevos geracionais e os novos valores culturais.
As famílias que deixaram o campo e hoje vivem nos bairros periféricos das cidades já não demandam somente assistência para sobreviver. Demandam segurança cidadã, transporte público eficiente, acesso a uma moradia digna, educação de qualidade e oportunidades de emprego que lhes permita a eles e a seus filhos progredir.
A derrota de Lula deve deixar-nos várias lições; a primeira é que a política do Estado não pode centrar-se exclusivamente nas pessoas que se encontram na base da pirâmide social, também deve dar resposta à sociedade que estamos construindo.
Não se trata de abandonar os pobres, mas de ampliar o olhar. De combinar proteção social com melhores serviços públicos: segurança, transporte, educação e saúde.
A redução da pobreza foi um logro muito importante, mas o desenvolvimento exige algo mais: que quem saiu dela possa consolidar seu progresso e não viva com o temor a retroceder.
Tudo isto nos ensina que a economia se mede com números, mas o desenvolvimento e o progresso devem medir-se pela qualidade de vida das pessoas.
Nestes últimos 20 anos, nossa sociedade se transformou e… nossa política tem a obrigação de evoluir com ela.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
Nossa equipe editorial trabalha para oferecer informação clara, completa e atualizada para o leitor brasileiro.