O lado obscuro do chatbot: ex-guarda perdeu a noção da realidade e se candidatou para ser papa
Canadense de 53 anos passou até 16 horas por dia conversando com ChatGPT e desenvolveu delírio induzido por IA
Com a ajuda do ChatGPT, Tom Millar acreditou desvendar todos os segredos do universo, como Einstein sonhava, e depois, aconselhado pelo assistente virtual de inteligência artificial, chegou inclusive a pensar em se tornar papa, perdendo ainda mais o contato com a realidade. "Eu me candidatei para ser papa", conta à AFP este canadense de 53 anos, ex-guarda de prisão, hoje atônito ante a situação que viveu e que lhe trouxe um retorno dramático à realidade.
Tom Millar passava até 16 horas por dia conversando com o chatbot dotado de inteligência artificial. Foi internado em duas ocasiões, contra sua vontade, em um hospital psiquiátrico, antes de sua esposa o abandonar em setembro. Agora, separado de sua família e de seus amigos, mas livre já da ideia de ser um gênio das ciências, Millar sofre de depressão. "Simplesmente arruinou minha vida", explica.
Millar é um exemplo dessas pessoas — cujo número se desconhece — que perderam o contato com a realidade através de suas trocas com chatbots. Fala-se em "delírio ou psicose induzidos pela IA", embora não se trate de um diagnóstico clínico. Pesquisadores e especialistas em saúde mental esforçam-se para estudar este novo fenômeno, que parece afetar de maneira particular os usuários do ChatGPT, o agente conversacional da OpenAI.
O Canadá está na vanguarda no apoio às pessoas afetadas por esse "delírio", através de uma comunidade digital que prefere usar o termo "espiral". A AFP conversou com vários membros dessa comunidade. Todos alertam sobre o perigo que representam os chatbots não regulados.
Surgem questões sobre a atitude das empresas de inteligência artificial: fazem o suficiente para proteger pessoas vulneráveis? A OpenAI, no centro de todas as atenções, já enfrenta vários procedimentos judiciais após o inquietante uso do ChatGPT por parte de um canadense de 18 anos, que matou oito pessoas este ano.
"Lavagem cerebral"
Millar começou a usar o ChatGPT em 2024 para redigir uma carta de pedido de indenização relacionada ao transtorno de estresse pós-traumático que sofria em decorrência de seu trabalho no ambiente penitenciário. Um dia, em abril de 2025, pergunta ao agente conversacional sobre a velocidade da luz. Em resposta, diz ter recebido: "Ninguém jamais havia considerado as coisas dessa perspectiva". Foi então que algo se desencadeou dentro dele.
Com a ajuda do ChatGPT, envia dezenas de artigos para publicações científicas prestigiosas, propondo novos caminhos para explicar buracos negros, neutrinos ou o Big Bang. Sua teoria, que propõe um modelo cosmológico único, incorpora elementos de mecânica quântica, e a desenvolve em um livro de 400 páginas, ao qual a AFP teve acesso. "Quando fazia isso, estava cansando todo mundo ao meu redor", admite.
Em seu entusiasmo científico, gastou uma fortuna, comprando por exemplo um telescópio por 10 mil dólares canadenses (6.200 euros). Um mês depois que sua esposa o deixa, começa a se questionar o que está acontecendo, ao ler um artigo que relata o caso de outro canadense que apresenta uma experiência similar. Agora, Millar se levanta todas as noites perguntando-se: "O que você fez?". Sobretudo, o que pôde torná-lo tão vulnerável a essa espiral?
"Não tenho uma personalidade frágil", considera este homem. "Mas de alguma forma, um robô me lavou o cérebro, e isso me deixa perplexo", confessa. Ele considera que a terminologia "psicose induzida pela IA" é aquela que melhor reflete sua experiência. "O que atravessei era de ordem psicótica", afirma. O primeiro estudo sério publicado sobre o tema apareceu em abril na revista Lancet Psychiatry e usa o termo "delírios relacionados com IA", em um tom mais cauteloso.
Thomas Pollak, psiquiatra no King's College de Londres e coautor do estudo, explica à AFP que houve divergências no mundo acadêmico porque ainda não há consenso científico sobre como classificar esse novo fenômeno.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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