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Paraguai

O futebol como almanaque no Paraguai

Clubes com nomes de datas históricas refletem memória coletiva e identidade cultural do país

04/09/2026 11:00 4 min lectura 246 visualizações

O mais comum é nomear as paixões dos torcedores, ou seja, os clubes de futebol, aludindo à geografia (um bairro ou uma cidade), às profissões ou ocupações (ferroviários, estudantes) ou a certos valores sociais (liberdade, união, etc.).

Entretanto, se um hipotético observador estrangeiro desdobrasse as tabelas de posições das distintas divisões da Associação Paraguaia de Futebol (APF) ou, mais ainda, se adentrasse nos torneios da União do Futebol do Interior (UFI), notaria um fenômeno muito paraguaio: ligas que não se leem como um mapa, mas como um almanaque.

As tabelas dos torneios da Primeira Divisão, da Intermedia e da Primeira B estão lideradas atualmente por clubes cujos nomes são uma data: 2 de Maio de Pedro Juan Caballero, 12 de Junho de Villa Hayes e 12 de Outubro de Itauguá, respectivamente.

Na Primeira, entre doze equipes há duas cujos nomes fazem referência ao calendário; na Intermedia, outras duas entre dezesseis equipes; na Primeira C, seis entre dezessete. Ou seja, 22% dos clubes têm uma data como denominação. Se estendermos a contagem à UFI, existem mais ou menos uns 350 clubes com nomes extraídos do calendário.

Em nenhum outro lugar do planeta existe uma profusão tão sistemática de clubes com nome de data. Enquanto na Europa o número remete, no máximo, ao ano fundacional do clube (Schalke 04 ou 1860 Munique, na Alemanha), no Paraguai a identidade costuma condensar-se em um dia e um mês, com uma inclinação particular por alguns.

Mas o fenômeno vai além da simples anedota toponímica. Trata-se da materialização de uma memória coletiva (dos fundadores de clubes) que transforma a efeméride militar ou religiosa (as duas efemérides principais do país) em um sujeito social que calça as chuteiras cada domingo.

Porém agora há uma intenção de obrigar os clubes que têm data por nome a que a mudem. O projeto é oficioso e, segundo comentaram dirigentes, seria uma imposição da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol).

Ricardo Núñez, presidente de 12 de Junho, deixou entrever que um dos motivos obedece a uma questão de marketing; ou seja, ter esses nomes não resultaria atraente na hora de atrair investimentos ou posicionar como marca o clube. Núñez reconheceu que esse argumento é "um pouco fraco". Outro motivo seria que a celebração de uma data que faz alusão, por exemplo, a uma batalha pode resultar ofensiva para outros.

A despeito dos tempos de sensibilidade socialmente exposta que vivemos, a história não registra reclamações significativas nesse sentido, de modo que novamente parece um argumento escasso.

Em primeiro lugar, teríamos que nos perguntar a que se deve essa abundância histórica de datas nos nomes dos clubes paraguaios, sobretudo no interior do país.

A grande maioria das instituições desportivas nacionais foi fundada na primeira metade do século XX, em um país eminentemente rural, católico e protagonista de duas guerras internacionais. Esses traços culturais e históricos influem nas denominações de nossas instituições sociais e desportivas.

A ideologia religiosa e a experiência militar são muito determinantes no Paraguai, desde a Colônia. O 12 de Outubro chama-se assim tendo em conta que a padroeira católica de Itauguá é a Virgem do Pilar, cuja festividade é nessa data; o 2 de Maio tem esse nome porque seus fundadores fizeram parte do Regimento de Infantaria "2 de Maio" na Guerra do Chaco.

Resulta curioso que, no caso das datas que fazem referência a um santo ou uma virgem, a ampla maioria das vezes se utilizem precisamente aquelas datas e não o nome dessas figuras religiosas a que remetem.

Supõe-se que isso é assim porque denominar um clube de futebol "San Blas" resultaria demasiado profano e, talvez, insultante para a memória do santo.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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