O derribo de duas avionetas de Hermanos al Rescate pelo qual EE.UU. imputou assassinato a Raúl Castro 30 anos depois
Acusação formal apresentada contra o ex-líder cubano marca escalada da pressão americana sobre a cúpula de Cuba
O ataque contra duas avionetas civis no Estreito da Flórida em 24 de fevereiro de 1996 desencadeou uma das maiores crises entre Cuba e EE.UU., com efeitos que perduram até hoje.
Aviões de combate cubanos derrubaram duas aeronaves de Hermanos al Rescate, uma organização de exiliados cubanos de Miami, cujos ocupantes morreram no ato.
O episódio provocou uma forte condenação internacional, levou EE.UU. a endurecera as sanções contra o regime de Fidel Castro e sepultou qualquer possibilidade imediata de aproximação entre este e a administração do então presidente Bill Clinton.
Mais de trinta anos depois, o incidente volta a ganhar relevância.
O governo dos Estados Unidos apresentou nesta quarta-feira uma acusação formal contra Raúl Castro pelo derribo das avionetas de há três décadas.
Castro enfrenta 4 acusações de assassinato, assim como conspiração para matar cidadãos estadunidenses e destruição de aeronaves, anunciou de Miami o procurador-geral interino de EE.UU., Todd Blanche.
A imputação do ex-dirigente cubano de 94 anos representa uma importante escalada na pressão de Washington sobre a cúpula cubana, com o precedente recente da captura e extradição do ex-líder venezuelano Nicolás Maduro.
Raúl Castro cedeu formalmente a presidência de Cuba e a liderança do Partido Comunista em 2021 ao atual presidente Miguel Díaz-Canel, mas continua sendo considerado por muitos o homem mais poderoso do país.
A notícia chega em um momento especialmente delicado para uma ilha imersa em uma crise econômica e energética que atinge níveis extremos após as recentes pressões da administração de Donald Trump e a perda de apoio da Venezuela desde a queda de Maduro em janeiro.
As acusações foram apresentadas em uma data simbólica: em 20 de maio de 1902 foi instaurada a República de Cuba após a independência da Espanha, embora o regime de Fidel Castro vetasse esta celebração por considerar que o país passou a estar sob tutela estadunidense.
Em todo caso, retornamos ao derribo das avionetas em 24 de fevereiro de 1996 para saber o que ocorreu e por que esse episódio continua tendo importantes consequências três décadas depois.
O derribo das avionetas de Hermanos al Rescate se enquadra no contexto do Período Especial, a profunda crise econômica que atingiu Cuba na década de 1990 após a queda de seu principal sustentáculo econômico, a União Soviética.
O desaparecimento da URSS junto com o resto do bloco socialista deixou a ilha imersa em uma emergência econômica extrema, com apagões, escassez de alimentos e falta de combustível.
Aquela crise — que muitos comparam com a atual — levou milhares de cubanos a tentarem abandonar a ilha pelo mar para se reunirem com familiares nos Estados Unidos, o que resultou na crise dos balseros de 1994.
"De repente, todo mundo começou a procurar qualquer coisa que flutuasse para tentar chegar à Flórida", explica a BBC Mundo o historiador e ex-diplomata cubano Juan Antonio Blanco.
Foi nesse contexto que surgiu em Miami Hermanos al Rescate, uma organização fundada por exiliados cubanos encabeçados por José Basulto.
O grupo começou a realizar voos sobre o Estreito da Flórida para localizar embarcações precárias com migrantes cubanos.
"Tentávamos encontrá-los, marcar sua posição e passá-la ao serviço de guarda-costas dos Estados Unidos para que os resgatasse", indica a BBC Mundo José Basulto, líder de Hermanos al Rescate que agora tem 85 anos.
Os membros da organização, que sobrevoavam frequentemente o Estreito, também lançavam água e comida aos balseros.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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