Entre mitos e tabus, o monstro
Está claro que Deus criou Adão "à imagem e semelhança", mas nem tanto, já que apenas o Criador era único e eterno, e dada sua natureza "animal" (nasce, cresce, se reproduz e morre), Adão não podia perpetuar sua espécie por si mesmo. Então, o Senhor tomou de seu costado o pedaço de carne e osso para lhe fazer uma fêmea. Assim nasceu o primeiro casal que daria origem à espécie humana, porque, ao criar Deus a Adão, voltando ao capítulo 1, versículo 26, além de lhe dar poder sobre todas as espécies, no versículo 28 lhe dá este mandato: "… tenham muitos, muitos filhos; encham o mundo e o governem". Está claro que o fim do casal, o par, na ideia do Criador, era a procriação, para tornar possível a perpetuação da espécie.
Bem. Tudo corria bem no Éden. Adão e Eva eram pares, brincavam alegres entre os demais animais, comendo dos frutos que prodigava a natureza edênica, menos – ó, ei? – de uma árvore proibida. Até que se cruzaram com a serpente – o diabo meteu a cauda, como se diz – e esta tentou Eva a degustar do fruto daquela árvore, uma inofensiva maçã, que Eva lhe fez provar, por sua vez, a Adão. Com esse ato de desobediência – o Criador lhes havia advertido que não o fizessem –, rompeu-se a amizade com Ele, este os expulsou do Paraíso e assim aterrissaram neste vale de lágrimas.
O texto bíblico esclarece que a árvore proibida que dava esse fruto era do conhecimento do bem e do mal, e esse ato – que lhes abriria a mente ao livre arbítrio –, pela desobediência, foi o pecado original. Um amigo me disse uma vez que o pecado original na verdade era o orgasmo. Que ideia. Contudo, pensando mais detidamente, acho que ele tinha razão.
Aludo a essa passagem bíblica – já que 90% da população do país, excluindo os incrédulos e de outras crenças, sua fé se sustenta nesta tradição hebraico-cristã – para tentar entender a origem da supremacia do macho, o que, obviamente, não se sustenta somente neste Gênesis. Também decorre da vilania e brutal superioridade física quanto à sua condição de animal predador.
Assim, ao longo da história e por toda a largura do mundo, viu-se e sofreu-se esta ideia de superioridade do homem, chamado o ápice da criação, diante da mulher – apresentada como a necessidade, o suporte para que este ápice não desabe –, que se internalizou e permeou a educação, a política, o trabalho, toda a sociedade mesma, perpetuando a cultura machista. Isso, fingindo demência diante do óbvio, que é sem a fêmea, sem a mulher não há vida, sem ela se extingue a espécie, a menos que o macho… já sabe.
Se de verdade o pecado original é o orgasmo, com isso se fecha o círculo ao redor da mulher, que está para procriar, não para gozar do sexo. A libido é pecaminosa (para elas), porque o homem promíscuo goza (além disso) de alta estima e a mulher é seu objeto sexual. Claro que essas são puras divagações minhas.
Contudo, penso só que, se as mulheres que sobreviveram ao genocídio de 1870 carregaram nos ombros este país e repovaram esta nação quase aniquilada, pergunto-me por que o quase desaparecimento da população masculina fundamentou mais o machismo.
Já navegamos um quarto do século XXI e essa ideia anacrônica continua deglutindo vítimas em sua forma mais brutal: em apenas dois anos e quase dez meses, em nosso bendito país, 130 mulheres foram assassinadas por seus pares (o homem/macho) e 170 sobreviveram; ou seja, 300 mulheres vítimas desses monstros.
É hora de desmantelar essa praga com a mudança de paradigma na educação, porque está visto que apenas com papéis ou leis não bastaum, não os intimidam.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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