Duas décadas sem El Yacaré
Muitos que leem esta coluna neste momento não fazem ideia do que estou falando... bem, escrevendo. Também naqueles anos em que o semanário estava em vigência poucos o conheciam.
Bem, lhes conto: El Yacaré era semanário de oito páginas que saía cada semana, durante cinco anos. Não tinha custo, sua distribuição era gratuita.
Circulava principalmente em lugares onde havia concertos, peças de teatro, exposições, lançamentos de livros, praças, quiosques, etc.
Apareceu desde setembro de 2001 até finais de agosto de 2006. No princípio teve uma tiragem semanal de 5.000 exemplares e se manteve em aproximadamente 2.000.
Sim, repito, era grátis. Esse periódico, onde fiz minhas primeiras armas no jornalismo (e também o colega Roberto Irrazábal) não se vendia. Subsistia pelos anunciantes, mas sobretudo por assinantes.
Os que trabalhavam em El Yacaré tampouco recebiam pagamento algum. A equipe, que teve como iniciadores Miguel Méndez e Alejandro Lanas, era composta por gente proveniente do teatro, da música, de carreiras da UNA.
E o que publicava El Yacaré? O maior atrativo para o público que acessava os exemplares era a cartela de atividades onde se podia conhecer dia, hora e local e outros dados das obras teatrais, de dança, exposições, cursos, oficinas, etc.
Também trazia artigos de opinião, análises e notas jornalísticas diversas. No último ano e meio um dos colaboradores assíduos do periódico foi o sociólogo Tomás Palau, que além disso era assinante.
El Yacaré era um periódico alternativo. Isso permitiu que suas páginas tomassem de maneira distinta os acontecimentos da realidade que tocava naqueles anos que circulou pelas ruas asuncenas.
Nascido entre os últimos estertores da euforia do Março Paraguaio, o jacaré atravessou a trambólica presidência de Lucho González Macchi e boa parte da presidência de Nicanor Duarte Frutos.
Por suas páginas passaram a crise de quem emigrava aos montes para a Espanha, a eterna luta pela terra, o inservível edito municipal da era Riera, a dor do incêndio do supermercado Ycuá Bolaños e a também eterna problemática dos povos indígenas, entre tantos outros temas que ficaram tatuados na história nacional.
Ter uma visão alternativa e tocar em temas sociais e conjunturais tampouco o tornava entediante. Havia liberdade na escrita e muitas vezes a gráfica dentro de suas páginas trazia surpresas da mão de Charles Daponte; aqui é necessário destacar o design e a tipografia.
É preciso contar que El Yacaré não foi uma experiência isolada, mas parte de experiências coletivas. No ano de 1999 um grupo de entusiastas neófitos criaram El Espacio Sajonia, centro cultural que dava um ar distinto a esse bairro.
Foi nesse lugar e com boa parte do grupo humano que o conformava onde o réptil de escamas de papel periódico viu a luz. Posteriormente, com a itinerância do centro cultural, foi até a avenida Espanha, O (Outro) Espaço, seguiu em outra casarão na rua Ayolas, O Espaço.
Terminou seu périplo existencial em um escritório dentro do enorme casarão que o Sindicato de Jornalistas do Paraguai teve sobre Haedo.
Feito a puro pulmão, coração, fígado, distribuído a tração humana e em bicicleta, o semanário ficou na memória de muita gente que inclusive até agora tem guardados vários números.
El Yacaré foi uma experiência realmente sui generis em seu momento. Sem redes sociais e com uma página web meio aleatória que funcionou um tempo, faz parte da história pouco conhecida do jornalismo nacional, sobretudo para as novas gerações de leitores e nem é preciso dizer jornalistas.
Com seus 260 números superou por muito os cinco ou seis que costumam ser a expectativa de vida da maioria das publicações alternativas.
Vinte anos não é nada? E...
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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