Com Berta Rojas desfrutam até os fungos
Álbum 'La huella de las cuerdas' é indicado a três categorias do Grammy e representa a proposta mais ambiciosa da guitarrista paraguaia
Esta semana o álbum foi proposto "para consideração" dos prêmios Grammy nos EUA, em três categorias: Melhor álbum de música global, Melhores notas de álbum e Melhor design de embalagem. Trata-se seguramente da proposta artística mais ambiciosa da carreira de Rojas, uma obra-prima não apenas sonora, mas visual e intelectualmente profunda. Porque acredito que estamos diante da primeira produção paraguaia que pode aspirar a um prêmio da grande indústria. Reproduzo aquele comentário:
"O fungo do meu pé desfruta desde o Chaco paraguaio", escreveu um usuário no YouTube há cinco meses, na conta da guitarrista Berta Rojas. A assuncena de 59 anos acabava de subir o vídeo em que, surpreendendo a todos, interpreta junto ao compositor argentino Gustavo Santaolalla uma versão do Main Theme de The Last of Us, a popular série de televisão da HBO, baseada no também popular jogo. Cinco meses depois, surge o álbum La huella de las cuerdas, que inclui aquela versão, e não podemos senão seguir dando razão àquele expressivo usuário: efetivamente, até as formas mais minúsculas e persistentes de vida desfrutam da magia dos dedos de Rojas, no confim mais escondido do mundo.
É o milagre cotidiano da grande música o que se confirma, novamente, com esta feroz homenagem às distintas guitarras, aos distintos instrumentos de corda da América Latina, aos seus compositores e aos seus intérpretes ao longo do continente, em onze composições que abrangem séculos de história e têm em comum o instrumento que da Espanha passou à América para ter formas e sons ainda mais ricos e diversos. Pode-se dizer que, de fato, é o que Rojas vem fazendo disco a disco, homenagear a arte guitarrística da América; mas este caso é especial pela investigação inerente à proposta apresentada em um livro e um vinil de 180 gramas, pelo seu caráter especificamente audiovisual, pela mistura de letra impressa, cantada e instrumentação simples e orquestral, pelos sons de um espaço geográfico e histórico amplíssimo harmonizados pela sugestão das cordas, pela app de realidade aumentada que permite ver em três dimensões os variados instrumentos executados no álbum, etc.
Vihuela, guitarra barroca, jarana huasteca, quinta huapanguera, cuatro porto-riquenho, bandola andina, tiple colombiano, guitarrón chileno, entre outros, são os instrumentos que soam nos dedos de artistas como a argentina Evangelina Mascardi, o paraguaio Lincoln Almada, o mexicano Eloy Zúñiga, a porto-riquenha Fabiola Méndez, os colombianos Hermanos Saboya, os chilenos Manuel García, Francesca Ancarola e Alfonso Ureta, o brasileiro Pedro Franco, mais o citado Santaolalla.
La huella del códice nos traz os ecos de anônimos pioneiros coloniais; El canario nos leva ao México mestiço da festa popular; Tierra mía, que está cantada, aos cumes utópicos dos Andes; uma versão monumental em medley com guitarra e harpa de Che la reina e Arroyos y Esteros dá um voo de pássaro emotivo sobre paisagens bucólicas do Paraguai, entre outras composições relevantes à primeira escuta.
Mas a que mais ressoa, ao menos em meus ouvidos, é o Tríptico sul-americano conformado por El mar, La montaña e Los llanos, magnífica obra composta pela galovenezuelana, residente em Lisboa, Elodie Bouny.
Orquestrada de uma maneira impecável, a primeira parte tem a impetuosidade distintiva do mar; na segunda, após uma calma aparente, a montanha devém intensidade surrealista; na terceira, pode-se sentir algo como uma mistura de Herminio Giménez com Ígor Stravinski, da tristeza dos trópicos e subtrópicos e a intensidade da selva e dos montes selvagens.
A gravação deste Tríptico sul-americano é de fato um grande triunfo artístico.
Que mais dizer de Rojas e sua arte. Que não tem teto ainda, é a síntese, e que se encontra ainda em plena posse...
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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