Barrios e Flores, na nota da cultura
Novo billete de G. 100.000 homenageia dois pilares da identidade musical paraguaia
Há algo simbólico em que o dinheiro, esse objeto que passa de mão em mão e acompanha os gestos mais cotidianos, leve agora a imagem de dois homens que fizeram viajar o Paraguai através da arte, de sua música.
O novo billete de G. 100.000, apresentado nesta segunda-feira pelo Banco Central do Paraguai (BCP), está dedicado à arte nacional e reúne as figuras de Agustín Pío Barrios e José Asunción Flores. O novo design faz parte da renovação integral da família de billetes e propõe, junto com novos elementos de segurança, um olhar sobre personagens e expressões que fazem parte da identidade do país.
A escolha tem uma força cultural particular. Barrios, conhecido universalmente como Mangoré, converteu a guitarra em veículo de uma obra que alcançou dimensão internacional.
Nascido em San Juan Bautista de las Misiones em 1885, foi violonista e compositor e é considerado uma das figuras paraguaias mais universais da guitarra clássica. Sua produção combinou uma extraordinária exigência técnica com influências da tradição europeia e das músicas hispano-americanas.
Flores, por sua vez, fez algo diferente mas igualmente transcendente: criou uma nova maneira de dizer o Paraguai através da música. Nascido em Assunção em 1904, no bairro Ricardo Brugada, ingressou ainda criança na Banda de Música da Polícia e lá iniciou uma formação que o levaria a transformar a música paraguaia. Em 1925 criou a guarania, um gênero de caráter lento, melancólico e reflexivo que acabou se convertendo em um dos grandes símbolos culturais do país.
A primeira guarania foi Jejuí. Depois vieram obras que fazem parte da memória musical paraguaia, muitas delas nascidas de sua colaboração com o poeta Manuel Ortiz Guerrero, como India, Ne rendápe aju e Panambí vera. A guarania transcendeu assim seu criador e se converteu em uma expressão compartilhada, transmitida entre gerações e reconhecida como símbolo de identidade e pertencimento.
Em dezembro de 2024, esse percurso alcançou dimensão internacional com a inscrição da guarania na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco. O reconhecimento hierarquizou não apenas um gênero musical, mas também a história de seu criador e o vínculo dessa música com a memória coletiva paraguaia.
Para Antonio Pecci, do Ateneo Paraguayo, a presença de Flores no novo billete é também resultado de um processo que começou muito antes dessa apresentação.
Pecci recordou que, junto com Alcibiades González Delvalle, propuseram durante a presidência de José Cantero à frente do BCP a possibilidade de que a figura de Flores ingressasse na série de billetes emitidos pelo país. Segundo relatou, durante aquela gestão havia sido realizada além disso uma edição limitada de moedas com a efígie do Mestre.
O vínculo entre o BCP e a memória musical paraguaia teve outros capítulos. No início de 2023, Pecci participou junto com representantes da instituição, do então ministro Capdevila e da Orquestra Sinfônica Nacional do lançamento da primeira edição das Memórias do Mestre, no hall do Banco Central. Em dezembro de 2024, esse mesmo espaço foi cenário de um concerto celebrado por ocasião da declaração da guarania como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Pecci também recordou como parte desse processo a renovação do mural do hall do BCP, realizado por Koki Ruiz e inspirado em Flores e nos primeiros passos da guarania.
Agora, porém, a imagem sai dos espaços culturais e entra na circulação cotidiana.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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