"As renúncias não são perdas, são oferendas", a história do cardeal
Adalberto Martínez Flores relata sua jornada de fé desde a infância em Asunción até se tornar o primeiro cardeal do Paraguai
Meu nome é Adalberto Martínez Flores e nasci em Asunção no dia 8 de julho de 1951. Sou sacerdote e pela graça de Deus o primeiro cardeal deste nosso belo país.
O chamado de Deus em minha vida não se deu em um momento único ou extraordinário, mas foi crescendo pouco a pouco na cotidianidade da vida.
Poderia dizer que desde pequeno fui profundamente marcado pelo abrigo de meus pais, Aureliano e Esmeralda. Eles não apenas nos cuidavam, mas também nos transmitiam, a nós, sendo ainda crianças, o amor que se tinham, ensinando-nos a caminhar juntos nas boas e nas más, na saúde e na doença. Esse testemunho simples, mas autêntico, foi uma primeira escola de vida e de fé.
Somos quatro irmãos – Víctor, eu Adalberto, Óscar e Gustavo – com quem crescemos recebendo de nossos pais uma atenção constante, marcada pelo sacrifício e uma dedicação generosa e compartilhada.
Por motivos de trabalho de meu pai, tivemos que nos deslocar de um lugar a outro do país. Ele era guarda sanitário, ou seja, um servidor da saúde pública dedicado a custodiar, prevenir e cuidar da saúde das pessoas, especialmente em comunidades afastadas e com muitas necessidades.
Essa missão nos levou a percorrer distintos lugares do país. Recordo particularmente zonas do Chaco e localidades muitas vezes esquecidas; Pirizal, em Colônia Ceibo, última parada do trem desde Pinasco, e de lá depois de meses, novamente partíamos para outros destinos onde meu pai era enviado.
Essa história itinerante marcou profundamente nossas vidas e nossa maneira de viver: Não tínhamos um lote próprio nem contávamos com um teto estável; a terra e o teto onde nos fixávamos era a concordância familiar, o compartilhar juntos a mesa e, ainda que o pão fosse escasso, com fé se amassava a providência cotidiana de Deus. Meus pais eram também sumamente generosos.
Nesse caminho, também teve um lugar importante minha avó paterna, Tránsito de la Cruz Barúa. Finalmente, chegamos a Asunción, passando também por Coronel Oviedo, onde pude culminar até o quinto ano, e depois continuar o sexto ano já em Asunción.
Em meio a essa história foi crescendo em mim uma inquietação interior. Não foi uma revelação repentina, mas uma presença constante de Deus que, pouco a pouco, foi amadurecendo em meu coração até converter-se em uma resposta confiada naquele que sinto que sempre esteve presente em minha vida.
Estando em Asunción, e tendo culminado o ensino médio com o bacharelado comercial, ingressei na Faculdade de Economia, onde cursei três anos dessa carreira. Posteriormente, tomei a decisão de migrar em busca de melhores horizontes de estudo e de trabalho.
De certa forma, me distanciar da família significou um sacrifício real. A separação dos seres queridos sempre implica um desenraizamento interior, especialmente quando a família foi o núcleo que sustenta e dá sentido à vida.
Em meio a esse processo, a fé foi um sustentáculo fundamental porque permitiu dar sentido às renúncias e aos desafios que iam aparecendo.
As renúncias não se vivem como perdas, mas como uma forma de entrega que amplia o coração. Não se trata simplesmente de deixar algo, mas de optar por um amor maior. Assim, a renúncia se transforma em liberdade interior, em disponibilidade e em capacidade de se dar aos demais.
ORDENAÇÃO
Meu sim ao Senhor no sacerdócio nasceu como uma continuidade e seguimento da opção por Deus que já havia feito muito antes como jovem leigo. O sacerdócio foi se delineando como um estado de vida e ministério que sentia poder ser meu melhor caminho para viver aquilo que já levava no coração: O serviço a Deus e à sua Igreja.
Essa disponibilidade de serviço me levou a assumir responsabilidades dentro da Igreja.
Recebi a ordenação sacerdotal das mãos de monsenhor Sean O'Malley, no dia 24 de agosto de 1985, na paróquia La...
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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