A sombra que projeta um anão
Gustavo Alfaro e sua filosofia de 'caçador de utopias impossíveis' levam Paraguai aos oitavos do Mundial 2026
Com Gustavo Alfaro ao comando, Paraguai chegou aos oitavos de final do Mundial 2026 após superar uma complicada fase de grupos e eliminar a Alemanha, uma façanha que reforça a fama de realizar milagres que o técnico de Rafaela se construiu no futebol sul-americano.
"O pior que podem me dizer é que sou um improvisado, eu não improviso. Antes de tomar uma decisão a penso 1.000 vezes, lhe dou volta 100 vezes, coloco todas as hipóteses possíveis de conflito e depois tomo a decisão", disse Alfaro na véspera do cruzamento dos oitavos de final deste sábado contra a França.
Alfaro chegou ao Paraguai em 2024, quando a Albirroja naufragava nas eliminatórias sul-americanas após uma humilhante Copa América. Em poucos meses a levou a derrotar Brasil e Argentina, e a assegurar o bilhete para um Mundial pela primeira vez desde 2010.
"Este time há um ano e nove meses estava fora de tudo", recorda frequentemente o técnico.
Não era a primeira vez que assumia um desafio desse tipo. Alcançou seus maiores êxitos à frente do modesto Arsenal de Sarandí, ao qual conduziu a conquistar a Copa Sul-Americana e o Clausura argentino. Anos mais tarde também levou o Equador ao Mundial do Catar 2022, outra missão impossível quando assumiu o cargo.
"Eles acreditaram desde o primeiro dia, se alinharam, foram pacientes, foram perseverantes, foram caçadores de utopias impossíveis. Porque ninguém acreditava no Equador e hoje o Equador está em pé", disse Alfaro naquela ocasião.
Ao "caçador de utopias impossíveis" — alcunha que dá título a um livro escrito por Alfaro no qual desenvolve sua filosofia como treinador —, nem sequer o incomodou o 4-1 que o Paraguai sofreu diante dos Estados Unidos, um dos anfitriões, em sua estreia no Mundial.
Conquistou um 1-0 ante a Turquia apesar de jogar toda a segunda etapa com um a menos pela expulsão de Miguel Almirón e selou a classificação com um 0-0 ante a Austrália em um jogo no qual saiu para não perder, o que lhe custou muitas críticas.
"Nos darão por mortos, mas estamos aqui e vamos lutar", disse após aquele jogo.
Da escola de técnicos de longas conversas, carga tática e uma relação muito pedagógica com o grupo, quase de filósofo, Alfaro compartilha traços com o também santafesino Marcelo Bielsa, que acaba de viver no Uruguai o desgaste desse modelo que não convenceu o vestiário charrúa.
Bielsa confessou que os jogadores lhe haviam pedido conversas mais curtas para "não sobreexigir a atenção das mentalidades mais jovens", mas a Alfaro, sua vitória sobre a Alemanha, lhe deu crédito suficiente para silenciar até os mais críticos, liderados pelo mítico goleiro José Luis Chilavert.
"Alfaro é um personagem que não sabe nada de futebol, ele o único que sabe é falar. Nas declarações que faz denigre o jogador paraguaio", disse Chilavert. "Lhe colocaram um tapete vermelho a uma pessoa que em toda sua vida viveu o sucesso, sempre fracassou, em San Lorenzo de Almagro, em Boca Juniors", acrescentou.
Mas Alfaro tem uma utopia irrenunciável, "por mais que tenha o mundo contra". "Se não fosse assim, seria como perder duas vezes: perco o jogo e porque traio minhas convicções. E essa é a pior derrota que pode ter um treinador".
Este sábado o Paraguai terá diante de si a poderosa França, a grande favorita ao título. Aferrado a sua utopia, Alfaro enfrará o desafio fiel à ideia que expôs antes de eliminar a Alemanha: "Quando vires a sombra de um gigante, não te assustes. Observa onde está o sol, porque pode ser a sombra que projeta um anão". EFE
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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