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Paraguai

A indústria do medo no Paraguai. Quem lucra com o medo do crime?

01/05/2026 11:15 3 min lectura 66 visualizações

Esta dissociação é um simples capricho cidadão ou produto do exagero dos meios de comunicação? Minha resposta se inclina a que o medo e a sensação de insegurança, além de uma reação frente ao crime, são recursos que se gerenciam, circulam e geram benefícios milionários; ou seja, existem setores que lucram com o temor.

Em primeiro lugar, encontram-se os atores econômicos, esses que Alberto Binder denomina a indústria do medo. Empresas de segurança privada, vendedores de armas, companhias de seguros e fornecedores de dispositivos de vigilância que operam em um mercado onde o temor é a matéria-prima. O dado empírico é contundente e permite dimensionar sua magnitude. Segundo o último Atlas da violência e insegurança, 92,4% da população adotou alguma medida de segurança com o objetivo de evitar ser vítima de crime.

As pessoas investem em proteção na proporção de suas possibilidades, mas a maioria destinou entre G. 1.500.000 e G. 3.500.000. Em conjunto, essas práticas de autoproteção geraram receitas anuais próximas aos USD 1.300 milhões para essas indústrias. No entanto, não se trata unicamente de um fenômeno econômico.

Existe um segundo ator que se beneficia e é o poder político. O medo é também um recurso de governo. Como mostrou o antropólogo Michael Taussig, estamos diante de uma cultura do terror que produz um clima que legitima determinadas formas de controle social.

No Paraguai, a insegurança é frequentemente apresentada como uma ameaça constante, difusa e crescente, ainda quando os indicadores objetivos não respaldain essa narrativa. Esta construção discursiva habilita e justifica políticas de endurecimento penal, militarização e a aceitação de medidas excepcionais. Com a criação da Fuerza de Tarea Conjunta, em 2013, destinam-se cerca de USD 10 milhões anuais em sua manutenção; USD 66 milhões nos últimos cinco anos.

Neste ponto, resulta necessário formular uma hipótese incômoda, e é que talvez não exista um interesse real em reduzir a insegurança subjetiva, porque sua persistência gera dividendos tanto econômicos quanto políticos. Uma cidadania menos temerosa seria também mais exigente e crítica, enquanto uma cidadania atravessada pelo medo tende a aceitar maiores níveis de controle e vigilância, ao mesmo tempo que incrementa seu consumo de bens e serviços de segurança.

Desde a criminologia, este cenário obriga a reformular as perguntas tradicionais e indagar nos processos de produção social do medo. Quem constrói a narrativa da insegurança? Como se difunde e amplifica? Que interesses econômicos e políticos se sustentam a partir dela?

O desafio urgente é construir um sistema de informação pública rigorosa, acessível e sistemática que permita contrastar as percepções sociais com os dados empíricos, e desenvolver políticas específicas de gestão da insegurança subjetiva, que permitam intervir sobre a ansiedade social sem recorrer exclusivamente a respostas punitivas nem extraordinárias. A isso se soma uma responsabilidade ética ineludível por parte dos meios de comunicação, das autoridades e dos próprios especialistas de não seguir reproduzindo uma narrativa catastrofista sem considerar seus efeitos econômicos, políticos e sociais. Tenhamos em conta que o medo, além de emoção, é um negócio e uma estratégia de poder que gera ganhos e mantém dócil a população.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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