A geopolítica da migração paraguaia
A teoria do grande reemplaço é uma teoria conspirativa de extrema direita que afirma que as populações nativas brancas e cristãs europeias estão sendo sistemática e propositalmente substituídas por povos não ocidentais. Entre seus principais adeptos encontram-se vários partidos de extrema direita da Polônia, Hungria, França e Alemanha.
Vários líderes do Partido Colorado como Gustavo Leite e Raúl Latorre forjaram vínculos de amizade com esses partidos, apoiados por setores muito tradicionais da Igreja Católica paraguaia e por vários grupos missionários evangélicos financiados desde Estados Unidos e Brasil.
Este aproximação internacional do Partido Colorado faz parte de uma postura geopolítica aparentemente contraditória.
Por um lado, o Governo paraguaio está promovendo a imigração tanto de nômades digitais principalmente dos Estados Unidos, aposentados europeus e brasileiros abastados. Por meio de uma nova normativa do Sistema Unificado de Abertura e Fechamento de Empresas (SUACE), um programa para investidores empreendedores ou "Investor Pass" outorga o status de residência permanente a estrangeiros com um investimento de apenas USD 70.000 durante 10 anos (USD 200.000 em caso de compra de imóveis).
Em grande diferença do resto da América Latina, essa nova normativa não exige nenhum requisito de estadia mínima no país. O programa está se acelerando com tal rapidez que se estima que o número total de novas residências permanentes chegue a 90.000 em 2026.
Mas ao mesmo tempo dessa política de atrair imigrantes "de luxo", continua a expulsão de milhares de compatriotas ao exterior em busca de trabalho, tanto para Argentina (ainda que menos pela crise no país vizinho) quanto para Europa, sobretudo Espanha e Itália.
Estima-se que atualmente na Argentina há 700.000 estrangeiros nascidos no Paraguai e outros 200.000 na Espanha.
Este êxodo, sobretudo de mulheres jovens para trabalhar como limpadores, empregadas domésticas, cuidadores de idosos e trabalhadoras do sexo, é tão grande que é considerado um fator principal para explicar a súbita redução da taxa de natalidade pela metade entre 1990 e hoje.
Era tanta a redução que foi necessário ajustar a cifra da população do censo de 2022 por mais de um milhão - do estimado original de 7,5 milhões para apenas 6,1 milhões.
Essa realidade de emigração, principalmente de jovens rurais falantes de guarani de baixos recursos econômicos, é uma prova dramática do fracasso do atual modelo de crescimento econômico. Por mais que durante uma década o crescimento do PIB tenha estado acima da média da região, a continuidade da emigração demonstra as grandes limitações de um modelo extrativista baseado na agricultura mecanizada com seu muito exíguo efeito cascata sobre o emprego rural. Mas que ironia - é o mesmo modelo econômico - baixos salários, baixos impostos e baixa regulação - que o governo utiliza como propaganda para atrair esses imigrantes de luxo.
Em síntese, vemos algo que parece muito contraditório. Por um lado, promove-se o país como uma utopia para estrangeiros abastados profissionais e empreendedores, mas ao mesmo tempo continua a expulsão de compatriotas pobres ao exterior em busca de emprego digno.
Recordamos a política racista da época liberal depois da Guerra da Tríplice Aliança quando a elite econômica incentivava a imigração europeia para "melhorar a raça" ao ponto de proibir em 1903 a imigração de pessoas de "raça amarela". E não esqueçamos as conclusões de Hugo Oddone, autor do estudo mais detalhado da história da migração paraguaia.
Conclui que desde 1870 até a data existe uma obsessão por promover a imigração, ligada ao síndrome da "raça impura". Nota que dos 155 artigos da Lei 978 "De Migração" de 1996, 118 abarcam aspectos da imigração e apenas 22 referidos aos processos de emigração.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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