A disputa pelo subsolo da terra vermelha e a conversa que falta
Paraguai enfrenta oportunidade histórica de negociar minerais estratégicos em posição de força regional
América Latina possui mais de 45% dos recursos mundiais de lítio, um terço do cobre e quase um quarto das terras raras, e fabrica menos de 1% das baterias do planeta. Chile produz 23% do cobre mundial e refina 5,9%; Peru produz 11,7% e refina 1,2%. Brasil senta-se sobre a segunda reserva de terras raras do mundo e contribuiu com 0,5% da produção. Os minerais são extraídos e enviados ao exterior, deixando que as cadeias de valor mais elevadas se realizem no exterior.
Os chilenos aprenderam essa lição da forma mais dura. Entre 1880 e 1918, o salitre foi a coluna vertebral dessa economia até que, após o término da Primeira Guerra Mundial, se descobriu como fabricá-lo sinteticamente e o país entrou em uma crise da qual demorou uma geração para sair, a partir dos anos 50, com a expansão das explorações de cobre. Estima-se que a janela dos minerais críticos dure entre quinze e vinte anos, período que se levaria para que as inovações das baterias de estado sólido ou do hidrogênio mudassem as regras novamente.
O Paraguai entra nessa história pela porta menos esperada. Na faixa que vai de Hernandarias a Katueté há um jazida de titânio que a empresa estadunidense Uranium Energy Corp estima em cerca de 3.600 milhões de toneladas de minério, com um investimento projetado em torno de 920 milhões de dólares. Dois projetos de urânio já estão em fase de desenvolvimento e há indícios de lítio e terras raras. É a primeira vez que o país figura seriamente no mapa minero global. Entra nele no momento exato em que Washington anda procurando fornecedores que não passem pela China.
O que se discute nesses casos, em qualquer parte do mundo, é o que o Estado exige em troca quando se conta com determinada escala de produção mineira. Cotas de produção reservadas para transformação local. Renovação de licenças atada a investimento real em plantas de processamento. Cláusulas de transferência tecnológica que sirvam de verdade e não como enfeite do contrato. Bolsas de pós-graduação em metalurgia pagas com royalties, para ter em dez anos a quem contratar. Nada disso assusta investidores, é o manual dos países que deixaram de vender somente terra e pedra.
E há duas cartas que convém não desperdiçar. A primeira é a energia: refinar minerais críticos exige eletricidade barata e limpa, que é justamente o que Europa e Estados Unidos começam a demandar. Isto exige não apenas receber cooperação, mas mecanismos verificáveis de transferência tecnológica e encadeamento que sirvam a nosso próprio projeto de neoindustrialização e não apenas à segurança de suprimento europeia e/ou estadunidense. A segunda é a localização. Com a ponte e a rota do Corredor Bioceânico, o Chaco se torna o caminho mais curto entre a mineria do Cone Sul e a Ásia. Cobrar pedágio é um negócio, industrializar é outro.
O Paraguai é o único aliado sul-americano de Taiwan, e a Chancelaria já deixou claro que negociar com a China interessa sempre que ninguém lhe peça romper com Taipei. Esse equilíbrio funcionou enquanto o que estava em jogo era soja e carne. Com minerais estratégicos sobre a mesa, um novo equilíbrio se verá colocado à prova muito antes do que se crê, e Assunção chegaria em melhores condições se negociasse junto com Buenos Aires, Brasília, Santiago e La Paz, em lugar de promover a competência entre eles para ver quem cobra menos impostos e royalties.
A energia limpa pode servir como catalisador da cadeia minero-industrial no Paraguai, complementando os elos dos países vizinhos. Em julho passado, a Presidência Pro Tempore do Paraguai apresentou o roteiro para o Plano de Minerais Críticos do Mercosul, uma ferramenta que pode ser chave para promover essa articulação em favor de nossa neoindustrialização regional.
Ainda há tempo para ter essa discussão. Passado esse momento, já não se chama discussão, e sim contrato fechado.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
Nossa equipe editorial trabalha para oferecer informação clara, completa e atualizada para o leitor brasileiro.