Zanardini: Uma ponte entre três margens
Sua condição de polímata refletia-se em uma vasta formação multidisciplinar: Nascido na Itália, diplomou-se em Engenharia Química e Civil, Filosofia, Teologia e Antropologia Social.
Chegou ao Paraguai como missionário em 1978. Inicialmente, dedicou sua energia à formação profissional de jovens e à construção de habitações sociais; no entanto, muito em breve entregou-se a uma causa que o fascinaria por toda a vida: O estudo e a defesa dos direitos dos povos indígenas.
Mais que observar da superioridade moral europeia, compreendeu –assim como o jesuíta Bartomeu Meliá– que para decifrar o universo indígena era necessário fundir-se nele. Uma verdadeira lição de humildade acadêmica: Viver ao seu lado durante anos.
Talvez o trecho mais entranhável de sua vida seja sua adoção por parte de um clã ayoreo através de um rito ancestral que o integrou como um membro a mais da família. Esta vivência íntima transformou seu olhar antropológico, impregnando-o de um profundo sentido de afeto e reciprocidade.
Em sua obra, Zanardini consolidou uma maravilhosa ponte epistemológica entre três margens: A precisão da ciência antropológica, a sensibilidade do encontro humano e o poder da literatura como ferramenta de emancipação cultural.
Prova disso é sua incursão na narrativa. Sua obra principal, Entre la selva y el Vaticano, plasma uma viagem interior através do aprendizado de Raúl, um sacerdote canadense de ideias progressistas que chega ao Paraguai para adentrar-se no mundo indígena. Embora possua um evidente matiz autobiográfico, não é uma mera crônica vital. Assistimos, página após página, ao desmantelamento da visão eurocêntrica: Raúl não vai para ensinar; vai ser lido pela natureza e pelos povos que a habitam.
Com grande destreza técnica, Zanardini nos mostra como o Vaticano –a ordem, a norma, o mármore, a palavra codificada– termina rendendo-se ante a selva, a vida, o caos fecundo, o barro, a palavra encarnada.
Seu estilo, como sua própria vida, carece de artifícios, mas transborda simbolismo; atrevo-me a qualificá-lo como uma Crônica de Índias moderna. Quinhentos anos depois do frade dominicano Bartolomé de las Casas, o autor recolhe as mesmas reivindicações sob um prisma do século XXI: Imbuído de respeito, rigor antropológico e humildade. Sua proposta já não busca meramente "defender" o indígena, mas aprender dele em igualdade de condições, assumindo que as crises social e ambiental retroalimentam-se. Ambas as fraturas erosionam a qualidade de vida da humanidade e do planeta; por isso, combater a pobreza emerge aqui como o melhor antídoto contra a destruição da natureza.
No final de 2023, a Aula Magna da Universidade Católica foi testemunha de sua imponente dissertação de ingresso à Academia Paraguaia da Língua Espanhola. Sua ponência, intitulada "Cadogan, Susnik, Chase Sardi, Melià e a sabedoria indígena", evitou os formalismos abstratos. Em seu lugar, Zanardini preferiu invocar seus mestres, seus companheiros de jornada e os grandes guardiões da memória linguística do Paraguai.
Após sua partida, o filósofo Cristian Andino advertiu uma perda profunda: "Com ele, praticamente desaparece uma forma de pensar o mundo; uma figura de intelectual verdadeiramente comprometido com os descartados do sistema. Assim, o luto por Zanardini transcende o individual e nos confronta com uma tragédia cultural maior: A progressiva agonia do intelectual crítico e emancipador no Paraguai contemporâneo".
Aquele homem, que compreendeu a língua como um abraço cultural e não como um simples mecanismo de signos, nos recebia sempre com um sorriso e uma palavra que funcionava como seu próprio espelho. Com esse eco vibrante escolho selar esta memória: Alegria, José!
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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