Os números de Peña
Hoje, contudo, esses resultados, ainda que positivos e necessários, dizem pouco sobre a resolução dos desafios do Paraguai atual. Convém revisar quais são esses dramas para entender por que os êxitos que Peña expõe apenas soam como mais do mesmo.
O mais importante é a qualidade de vida definida pela capacidade que temos paraguaios e paraguaias de cobrir nossas necessidades básicas, o que está diretamente relacionado com uma atividade econômica que nos permita ingressos suficientes e serviços públicos que garantam a cobertura de saúde, educação e segurança. Ao revisar esses aspectos é onde vemos que nem o crescimento econômico sustentado nem a estabilidade monetária (requisitos indispensáveis, mas não suficientes) se traduziram em uma mudança importante nas condições de trabalho nem nos ingressos da maioria dos trabalhadores.
Invariavelmente e desde há mais de vinte anos, ao redor de 62 por cento da gente que trabalha o faz no setor informal, sem um seguro social, cobertura médica ou a possibilidade de chegar a se aposentar.
Quase um terço dos trabalhadores nem sequer alcança o salário mínimo legal e, em geral, o poder aquisitivo da média dos ingressos caiu como consequência de um encarecimento paulatino dos alimentos.
Peña se vangloriou da criação de novos empregos formais, mas estes continuaram sendo apenas uma porção minúscula com respeito ao gigantesco mercado informal.
Obviamente, para conseguir melhores empregos as pessoas necessitam de uma melhor capacitação e aí a única mudança radical pode se dar na educação. Lamentavelmente, a única grande aposta educativa de Peña é o programa Fome Zero, que garante às crianças um prato de comida, mas que não supõe a menor mudança nos métodos nem na qualidade do ensino. Enquanto o mundo marcha à velocidade vertiginosa em direção à digitalização e ao uso da inteligência artificial, o Governo paraguaio de 2026 exibe como êxito um almoço escolar. Repito, isto seria digno de aplaudir vinte anos atrás, hoje é como celebrar que um hospital tenha algodões e gaze.
O outro golpe duríssimo para o trabalhador é a despesa do próprio bolso para cobrir atención médica e medicamentos. Peña falou da construção de hospitais e do investimento em insumos. Até seu padrinho político, o ex-presidente Horacio Cartes, lhe recordou, contudo, que o que se fez é absolutamente insuficiente. Como ocorre desde sempre no Paraguai, adoecer gravemente continua sendo uma passagem certa de volta à pobreza.
Em matéria de segurança, o presidente falou da formação massiva (e acelerada) de novos policiais, mas nada disse dos resultados do Programa Sumar que deveria resolver o problema mais grave de segurança que afeta hoje a gente: A legião de viciados que roubam o que seja com tal de comprar sua próxima dose.
Nem sequer se atreveu a dizer a quantos recuperaram.
Peña também colocou ênfase na redução da pobreza medida, segundo determinado ingresso médio. E os números são reais, só que incluem aí os subsídios diretos do Estado como o mencionado programa Fome Zero, o de adultos maiores e outros. O presidente sabe perfeitamente que esses programas não supõem uma redução real da pobreza. Se o subsídio se corta o beneficiário volta à sua condição anterior. O pior é que esses subsídios têm um custo altíssimo e crescente e não têm financiação assegurada. Por enquanto, já lhe provocaram um transtorno financeiro total ao Estado que agora deve mais de mil milhões de dólares a seus contratistas e fornecedores.
Em resumo, os números de Peña refletem uma economia que cresce, mas desconhecem a dura realidade da maioria de seus mandantes que em nada mudou em seus três anos de governo.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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