Dupla moral ambientalista
Atribuir o freio do desenvolvimento às regulações ambientais vai além de um erro de diagnóstico; é uma distorção deliberada. O Chaco, esse gigante semiárido que regula nosso clima e abriga ecossistemas únicos, vem suportando há décadas uma das taxas de deforestação mais alarmantes da região. O avanço das motoniveladoras não trouxe o derrame econômico prometido às maiorias que ali vivem. Ao contrário, o que vemos é o aprofundamento de um espolio.
Falemos de duplas morais. Não é acaso uma dupla moral falar de investimento e progresso enquanto se levantam cercas que cortam os caminhos ancestrais de comunidades indígenas, privando-as da caça, da pesca e da coleta que sustentaram sua vida por séculos? Não é dupla moral ignorar que, enquanto Filadelfia se consolida como um polo agroindustrial, comunidades como as do povo Nivaclé ou Ayoreo sofrem o desvio de cursos hídricos, a perda de sua biodiversidade e a total ausência de títulos comunitários que o Estado paraguaio lhes deve?
A narrativa extrativista quer nos fazer acreditar que cuidar do entorno é um luxo de países ricos que nós não podemos nos permitir. Nos apresentam um dilema enganoso: ou destruímos a floresta para gerar divisas, ou nos mantemos no subdesenvolvimento, mas a sustentabilidade não é inimiga da produção; é sua única garantia a longo prazo.
Um Chaco arrasado, sem matas que freiem os ventos nem retenham a umidade, terminará se transformando em um deserto improdutivo onde nenhum investimento, por mais milionário que seja, poderá florescer. O colapso climático e a alteração dos ciclos da água não discriminam balanços contábeis.
A verdadeira dupla moral pertence a quem exige segurança jurídica para seus capitais, mas ignora a segurança territorial dos povos originários garantida pela Constituição. É a de quem exige infraestrutura estatal para sacar sua produção, mas cala diante do abandono histórico da saúde e da educação na Região Ocidental.
O Chaco não é uma folha em branco pronta para ser redesenhada pelo capital financeiro. É um tecido social, cultural e biológico complexo. Responder às críticas ambientalistas com desqualificações em redes sociais só demonstra o medo de discutir o importante: que tipo de desenvolvimento queremos, para quem está pensado e que preço estamos dispostos a pagar como sociedade. Antes de apontar supostos entraves ideológicos, valeria a pena perguntar-se a quem enriquece o modelo atual e a quem deixa, literalmente, sem terra onde viver.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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