Cannes 2026: crítica do filme "Blaise"
- Por David Sánchez, desde Cannes (França), X: @tegustamuchoelc (*).
Estamos no Festival de Cannes 2026 (13–24 de maio). Nesse marco, e dentro de uma seção paralela historicamente periférica como a ACID, surge uma daquelas anomalias que justificam por si só a existência de um festival: Blaise, de Dimitri Planchon e Jean-Paul Guigue. Convém começar sem rodeios: é uma surpresa e, mais ainda, uma pequena joia. E o é precisamente onde menos se espera. Não costumo me deter em títulos da ACID — uma seção associada a propostas formais radicais, frequentemente irregulares ou deliberadamente herméticas —, mas este filme constitui uma exceção em todos os sentidos. É raro, sim, mas raro das boas.
Desde seu planejamento, Blaise se articula como uma comédia ácida que opera em vários níveis. Na superfície, o retrato da família Sauvage: Carole tenta recompor sua imagem ante seus empregados; Jacques faz o mesmo em seu entorno social; e Blaise, seu filho, deixa-se arrastar por uma jovem para uma cruzada revolucionária tão educada quanto improvisada. Sob esse esquema, o filme constrói uma sátira precisa sobre classes sociais, necessidade de reconhecimento e, sobretudo, a performatividade do compromisso político.
Aqui aparece um dos núcleos mais interessantes do filme: a manifestação como gesto de imagem. Não se trata tanto de transformar a realidade quanto de ser visto formando parte de algo. Blaise o expõe com clareza: participar "porque fica bem", porque posiciona, porque outorga uma identidade. A política como superfície.
Nesse ponto, o filme introduz uma ideia que resulta particularmente atual e que convém sublinhar de forma explícita. As ações que vemos nas manifestações — lançar garrafas, provocar a polícia, inclusive o uso de artefatos mais extremos — não produzem nenhum efeito real sobre a causa que supostamente defendem. O resultado é nulo. Não mudam nada. Não melhoram nada. Funcionam, mais bem, como gestos simbólicos dirigidos à própria imagem do participante.
É aqui onde o filme permite uma analogia direta com fenômenos contemporâneos muito visíveis, como as chamadas flotilhas rumo a zonas de conflito, concebidas em muitos casos mais como atos de exposição mediática que como intervenções efetivas. Do mesmo modo que no filme lançar uma garrafa ou uma granada não altera o curso dos acontecimentos, estas ações tampouco têm capacidade real de modificar a situação sobre o terreno. Sua lógica é outra: é pessoal, ser vistas, construir uma posição moral visível, ser cool, estar na onda.
Blaise não o formula de maneira discursiva, mas o mostra com bastante precisão. A ação sem efeito se converte em identidade. O gesto substitui o resultado. E, nesse deslocamento, aparece uma crítica clara a uma forma de ativismo contemporâneo onde a visibilidade importa mais que a eficácia. Nesse sentido, o filme dialoga com realidades muito atuais, reconhecíveis quase diariamente no espaço mediático.
O arco de Blaise reforça esta leitura. Sua implicação não nasce de uma convicção profunda, mas de uma necessidade de pertencimento e de reconhecimento. A influência da jovem — procedente de um entorno privilegiado — introduz outro matiz: a radicalidade como experiência, quase como consumo simbólico. A violência se converte em um signo externo de compromisso. Os golpes recebidos funcionam como credenciais. Quem não os possui, como o próprio Blaise, fica em uma posição ambígua.
Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.
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