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Cannes 2026: crítica de "Sempre sou teu animal materno" de Valentina Maurel

23/05/2026 14:00 4 min lectura 219 visualizações
Cannes 2026: crítica de “Siempre soy tu animal materno” de Valentina Maurel

O novo filme de Valentina Maurel chega à seção Festival de Cannes dentro de Um Certain Regard, um espaço historicamente associado a cineastas emergentes, propostas de autor e obras que priorizam a sensibilidade estética acima da narrativa convencional. O destaque aqui é que Maurel, após anos orbitando o ecossistema do cinema de festivais e as instituições francesas de formação e financiamento, consegue dar o salto direto para a seleção oficial de Cannes. Não é um detalhe menor. Em uma indústria onde muitos diretores passam anos acumulando presença em seções menores, residências ou festivais intermediários antes de alcançar essa plataforma, o percurso de Maurel evidencia até que ponto o filme foi concebido e moldado para dialogar com a linguagem específica do grande circuito festivaleiro europeu.

A história acompanha Elsa, uma jovem de 28 anos que retorna a Costa Rica após anos na Europa e se reencontra com sua irmã menor Amalia, absorvida por um universo entre o esoterismo, a deriva emocional e o vazio existencial. Paralelamente, o pai, Nahuel, tenta escapar da decadência afetiva através de conquistas românticas passageiras, enquanto a mãe, Isabel, revive seu passado republicando poemas eróticos escritos durante sua juventude. Sobre o papel, o filme propõe um retrato fragmentado de uma família em crise, onde cada personagem parece buscar desesperadamente uma forma distinta de escapar de si mesmo.

Contudo, o problema central aparece muito cedo: o filme nunca consegue converter essas linhas narrativas em uma experiência dramática verdadeiramente sólida. Maurel tenta construir três relatos simultâneos —o de Elsa, o de Amalia e o de Isabel—, mas nenhum termina adquirindo a densidade suficiente. Elsa, apesar de ser a aparente protagonista, fica constantemente deslocada pela encenação. Seu conflito interno está sugerido, mas raramente se sente vivo. Falta fricção, falta uma dinâmica emocional que faça o personagem se aderir realmente à história. Percebe-se como uma figura observadora, quase externa ao caos familiar que deveria atravessá-la.

A irmã menor, Amalia, funciona melhor precisamente porque sua dimensão esotérica e errática introduz certa tensão imprevisível. Embora o roteiro nunca aprofunde inteiramente suas motivações, sua presença possui algo incômodo e descontrolado que mantém o interesse durante vários momentos. Há cenas onde a relação entre as duas irmãs parece encontrar por fim uma verdade emocional, especialmente quando a distância afetiva entre elas emerge sem necessidade de explicações verbais. Mas até ali o filme se retrai antes de aprofundar realmente no conflito.

O grande problema é que Maurel parece confiar mais na atmosfera do que na construção dramática. O filme está repleto de imagens calculadas para o impacto contemplativo: planos distantes da cidade, patrulhas avançando lentamente por ruas vazias, sombras projetadas de terraços ou interiores onde os personagens aparecem isolados dentro do enquadramento. São imagens elegantes, indiscutivelmente pensadas com sensibilidade visual, e em muitos casos conseguem uma beleza melancólica genuína. Mas também terminam revelando certa dependência da linguagem que tradicionalmente seduz os festivais internacionais: silêncios prolongados, corpos fragmentados, conversas interrompidas e conflitos insinuados mais que desenvolvidos.

O problema é que toda essa sofisticação formal não alcança para sustentar as quase duas horas de metragem. O filme se torna progressivamente tedioso, até mesmo exaustivo. Há sequências que parecem desenhadas mais para transmitir uma sensação de desconforto contemplativo do que para avançar qualquer tipo de compreensão genuína dos personagens ou de suas situações.

Esta notícia foi traduzida pela Equipe Editorial do ParaguaiNews a partir da notícia original publicada por nossos colegas do Diario Paraguayo.

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